QUANDO A COMIDA VIRA IDEOLOGIA: CULTURA ALIMENTAR, CORPO E O NOVO FASCISMO DO “ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL”
Quem decide o que é comer bem — e quem fica de fora dessa definição?
Em nome da saúde, da performance e da excelência gastronômica, a alimentação vem sendo capturada por discursos que prometem bem-estar, mas operam como mecanismos de padronização dos corpos, dos gostos e dos modos de vida. Em uma era de crises múltiplas — econômica, ambiental, simbólica e política — antigos autoritarismos reaparecem sob novas roupagens, e a gastronomia, longe de ser neutra, torna-se um dos seus instrumentos mais eficazes de homogeneização cultural e controle social.
Vivemos uma era de crises múltiplas — econômica, ambiental, simbólica e política — em que antigos autoritarismos reaparecem sob novas roupagens. Uma delas é a transformação da alimentação e do cuidado com o corpo em instrumentos de controle moral e social.
A chamada “vida saudável”, longe de ser apenas uma escolha individual, passa a operar como ideologia, definindo quem é disciplinado, virtuoso e aceitável.
Matéria publicada pela revista Jacobin em fevereiro de 2024 chama atenção para esse fenômeno ao analisar o que denomina de “fascismo como estilo de vida”.
A tese é clara: diante da sensação de colapso, emerge uma tentativa de reorganizar o mundo a partir da reconfiguração do corpo masculino sitiado, transformando alimentação, exercício físico e disciplina corporal em pilares de um novo autoritarismo cultural.
Os exemplos contemporâneos são reveladores. De um lado, Bryan Johnson, empresário da tecnologia que construiu um império em torno da promessa de extensão da vida. Vegano, adepto de dietas ultracontroladas, suplementos sintéticos, protocolos biomédicos extremos e monitoramento constante do próprio corpo, Johnson transforma o organismo humano em projeto técnico, mensurável e corrigível. A comida deixa de ser cultura e passa a ser insumo funcional.
Do outro, Brian Johnson, conhecido como “Rei do Fígado”, que prega um suposto “estilo de vida ancestral” baseado no consumo de carnes cruas, culto à força física e à masculinidade dominante. Apesar de parecerem opostos — veganismo tecnológico versus carnivorismo primitivo — ambos compartilham a mesma lógica: o corpo como território de disciplina, performance e hierarquia.
Essa obsessão contemporânea não é nova. A história mostra que regimes autoritários sempre compreenderam a alimentação como ferramenta política. Na Itália fascista, sob Mussolini, o Estado interveio diretamente nos hábitos alimentares da população. A comida foi usada como propaganda, símbolo de nacionalismo e instrumento de controle social.
Com o isolamento econômico imposto por sanções internacionais a partir de 1935, o regime passou a defender a autarquia alimentar. O consumo de produtos importados foi demonizado, enquanto alimentos considerados “patrióticos” eram exaltados. Comer pouco tornou-se virtude cívica; buscar alimentos estrangeiros, traição.
A ironia histórica é que até a própria pasta — hoje símbolo máximo da identidade italiana — foi atacada pelo fascismo. Considerada pouco eficiente e dependente do trigo importado, a massa foi combatida em nome do arroz e da polenta, mais baratos e nacionais. “Distruggiamo la pasta”, bradava Filippo Tommaso Marinetti, intelectual futurista alinhado ao regime. As mesas das famílias italianas tornaram-se, como descreve o historiador Paolo Laforgia, trincheiras do nacionalismo econômico.
Ao mesmo tempo, a comida também foi resistência. Em 25 de julho de 1943, dia da queda de Mussolini, os irmãos Cervi, partigiani antifascistas da Emília-Romanha, distribuíram mais de 380 quilos de pastasciutta à população. Um prato simples — massa branca com manteiga e queijo — transformado em gesto político.
Hoje, não existe uma “dieta fascista” formal. Mas o termo reaparece como crítica a sistemas que impõem modelos únicos de saúde, pureza e performance, muitas vezes descolados da cultura, do território e das desigualdades sociais. O culto contemporâneo ao corpo perfeito, à longevidade infinita, à alimentação sintética ou rigidamente moralizada ecoa essa tradição autoritária.
Quando o veganismo deixa de ser escolha ética e se converte em norma moral superior; quando suplementos industriais substituem alimentos vivos; quando cozinhar é tratado como atraso; quando o corpo masculino musculado, jovem e produtivo vira padrão universal — estamos diante de algo que ultrapassa a nutrição. Trata-se de política do corpo.
A cultura alimentar, ao contrário, sempre foi plural, imperfeita, situada e coletiva. Reduzi-la a protocolos, métricas e performances é esvaziá-la de memória, afeto e história. Como ensina a própria experiência histórica do fascismo, quando o Estado — ou o mercado — decide o que é comer certo, saudável ou patriótico, a comida deixa de alimentar e passa a disciplinar.
Em tempos de crise, defender a diversidade alimentar, os saberes tradicionais e a autonomia dos corpos não é nostalgia: é um gesto profundamente político.
@charoth10

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