PISANDO LENTAMENTE NUM TERRITÓRIO DOS EGUNS: MEMÓRIA, FOLHAS E A PEDAGOGIA DO SABER-FAZER NO ILÊ ASIPÁ.

Logo que retornei a Salvador, após a viagem à Europa, pisei com respeito e devoção, no território dos Eguns no Terreiro Ilê Asipá. 

Minha participação na festa foi um gesto de agradecimento profundo aos nossos ancestrais, um reencontro necessário com a dimensão espiritual que sustenta a memória coletiva e orienta nossos passos no presente.

Nesta semana, voltei ao Asipá para uma conversa com a Osi Tebese Nicéia e Camila Costa Adebiyi, dentro das pesquisas que venho desenvolvendo sobre culinária tradicional e ancestralidade.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, conhecido como Assobá do Ilê Axé Opô Afonjá, Alapini no Culto de Baba Egun e filho da saudosa Ialorixá Mãe Senhora de Oxum, é descendente (trineta) de Marcelina de Xangô, da Casa Branca do Engenho Velho, que, por sua vez, descende da IYá Nassô. 

Nicéia é também Ajoê do ilê asé Opo Afonjá integra essa mesma linhagem, sendo filha de Nidinha e irmã de Cida, Cátia, Iraildes, Iara, entre outros. Todos são membros da família Axipá, fundadores do Egbe Lesse Egún, que deu origem ao Ilê Asipá (Axipá).


Falamos de memória, de plantas alimentícias tradicionais, da culinária tradicional da Bahia e de projetos em curso, mas, sobretudo, falamos da ancestralidade — esse fio invisível que conecta saberes, corpos e territórios. 

“ÀGBÀ LÓ NÍ Í RÍ EGUNGUN.” 

Tradução aproximada: “Somente quem tem maturidade (ou quem respeita o tempo) pode ver o Egum.”

Foi um encontro de escuta e partilha, onde a palavra não se apressa e o tempo respeita os que vieram antes, reafirmando que cuidar da memória é também um ato de continuidade e responsabilidade. Em silêncio e tranquilidade, nossa conversa fluiu enquanto passeávamos pelo espaço sagrado, conhecendo cada local, cada cantinho impregnado de axé.

Cozinha num terreiro de eguns 

🪔 Comida para Egun / Eggun (Oferendas Ancestrais)

Nas religiões de origem iorubá, como o Candomblé e religiões afro-cubanas como a Santería, "Egun" (ou "Eggun") refere-se aos espíritos dos ancestrais. Alimentar esses espíritos é uma forma de manter sua energia e conexão com os vivos.

 "Eguns" (ou Egunguns) são os espíritos dos mortos, os ancestrais que retornam ao mundo visível em rituais específicos.

Fundado por Mestre Didi, o Ilê Asipá é muito mais que um terreiro; é um território sagrado de preservação da memória ancestral e de afirmação dos saberes afro-brasileiros, um espaço de continuidade civilizatória. Ali, espiritualidade, arte, conhecimento e ética se entrelaçam no culto aos Eguns e na transmissão de fundamentos que atravessam gerações. 

A cozinha no Candomblé nagô, contexto vital de Mestre Didi, nunca foi um espaço profano ou secundário. Pelo contrário, é ali que o saber se materializa e se transmite. Como observado por estudiosos da criatividade nagô, os terreiros são comunidades litúrgicas onde, através da iniciação, os indivíduos absorvem princípios que engendram atividades de dança, canto, narração, música, artesanato e cozinha.

Mestre Didi (Deoscóredes Maximiano dos Santos), renomado artista plástico, escritor e Alápini — sumo sacerdote do culto aos Eguns —, teceu em sua obra uma profunda conexão entre a natureza afro-brasileira, ancestralidade e identidade cultural.

Seus contos, impregnados da sabedoria de Ifá, revelam a comida não como mero sustento, mas como veículo vivo de memória coletiva.

Guardião da tradição nagô, Mestre Didi concebeu o Ilê Asipá como um lugar de rigor e cuidado. Ali, o tempo é circular: passado, presente e futuro coexistem no gesto ritual, no silêncio e na escuta. O terreiro é um arquivo vivo, onde cada folha, cada caminho, carrega ensinamentos sobre pertencimento e respeito.

O conhecimento nunca se dissocia da prática; a relação com as plantas, com o território e com o alimento revela a vida como um sistema integrado, onde a ancestralidade é presença ativa que orienta modos de existir.

Mestre Didi foi, acima de tudo, um esteta dos sentidos. 

Sua pedagogia não se baseava em métodos formais, mas em uma educação dos sentidos: ver, tocar, cheirar, saborear e silenciar como formas legítimas de aprender e transmitir. 

Compreendia as plantas (ewés) como entidades vivas de conhecimento, portadoras de axé, memória e função social. Para ele, folhas não eram insumo: eram linguagem. Filho de Mãe Senhora, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, sua formação se deu no entrelaçamento entre o terreiro, a etnobotânica e a criação artística. 

No universo nagô que ajudou a sistematizar, as folhas organizam a vida — curam, protegem, alimentam. A culinária ritual e a cotidiana nascem dessa mesma lógica: escolher, tratar, combinar e respeitar. O gesto de cozinhar, como o de preparar um banho de folhas, exige tempo, técnica e escuta. O uso do dendê, do inhame, do milho, obedece a princípios cosmológicos. Para Mestre Didi, comer era sempre um ato político e espiritual.

Foi em meio a essa troca que o conto de Mestre Didi, “A Vendedora de Acaçá”, veio à tona. 

Nele, a narrativa transita entre a memória ancestral e a condição humana, lembrando-nos que, para o Alápini, comer nunca foi um ato trivial. Era, sempre, um ato político e espiritual, e essa compreensão se fez presença e palavra ali mesmo, na nossa roda.

Ao falar sobre o Acaçá de Mariscos, prato que desenvolvi e que carrega em si essa herança, Ekedi Nicéia trouxe a contribuição fundamental. Com a calma de quem guarda os segredos das folhas, ela nos lembrou: o acaçá é, antes de tudo, “o corpo”, é a matéria primordial que sustenta, organiza e dá forma, tanto no plano ritual quanto no cotidiano. 

No candomblé, reforçou, o alimento não se destina apenas a nutrir os Eguns; é oferta que fortalece os humanos. Comer, então, se revela um ato de equilíbrio, uma recomposição sutil do corpo e do espírito. 

Ela lembrou que o acaçá é, antes de tudo, “o corpo” — uma matéria que sustenta, organiza e dá forma, tanto no plano ritual quanto no cotidiano. Reforçou que, no candomblé, o alimento não se destina apenas a alimentar os Eguns, mas também a fortalecer os humanos.

Comer é um ato de equilíbrio, de recomposição do corpo e do espírito, uma prática de cuidado que conecta vivos e ancestrais. Assim, o acaçá ultrapassa a condição de prato: torna-se fundamento, elo entre o sagrado e a vida comum.

É uma prática diária de cuidado, um gesto contínuo que conecta vivos e ancestrais na mesma rede de existência.

Essa filosofia orienta as ações práticas do Ilê Asipá, que desenvolve um trabalho meticuloso de preservação de um dos elementos mais fundamentais: as folhas. Guardiãs do axé, elas concentram conhecimentos transmitidos oralmente.

KAJEUM ASHIPÁ 

Coordenado por Camila Costa Adebiyi, bisneta de mestre Didi, o terreiro implementou, por meio de um edital, uma horta de plantas sagradas, KAJEUM que ultrapassa o simples cultivo.

É um espaço pedagógico vivo, onde o manejo das plantas reafirma a relação profunda entre território, ancestralidade e saber tradicional., o terreiro implementou, por meio de um edital, uma horta de plantas sagradas que ultrapassa o simples cultivo. É um espaço pedagógico vivo, onde o manejo das plantas reafirma a relação profunda entre território, ancestralidade e saber tradicional. 

Cada folha plantada reconecta o terreiro à memória dos mais velhos, fortalecendo a continuidade. A horta se estrutura como ação educativa e comunitária, voltada para o fortalecimento de vínculos com a culinária tradicional, a transmissão de saberes práticos e a geração de trabalho e renda — inclusive através da saboaria artesanal, explorando as propriedades das ervas sagradas.

Esse encontro integra a agenda do Grupo de Estudos sobre a Culinária Baiana, movimento dedicado a reconhecer e valorizar as mulheres que construíram o sabor e o espírito da nossa cozinha, reafirmando a presença africana e diaspórica que nos atravessa.

Assim, o Ilê Asipá se consolida como um território de aprendizagem integrada, onde espiritualidade, cultura, trabalho e educação caminham juntos, honrando o legado de Mestre Didi. E nesta roda de conversa, de partilha de saberes que vão do acaçá às folhas, reafirmamos a potência dessa herança.

Confira os vídeos Egungun Mestre Didi

Orixá Nilu Mestre Didi 

O Ilê Asipá, famoso terreiro de culto Egúngún liderado por Mestre Didi, está localizado na Rua da Gratidão, 8 - Piatã, Salvador/BA, CEP 41650-195; e para informações e contato, os telefones podem ser (71) 3117-5377 ou via redes sociais como o Instagram (@ileaxipa). 

Endereço:

Rua da Gratidão, 8 - Piatã, Salvador/BA.

CEP: 41650-195. 

Telefone/Contato:

(71) 3117-5377 (utilizado para projetos e informações gerais).

Instagram: @ileaxip


Ilê Ashipá 


@charoth10


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