PECADORES: INFÂNCIA, TRANSGRESSÃO NA COSMOLOGIA DOS IBEJIS



Pecadores, produção da Warner Bros., se inscreve num campo simbólico denso ao evocar, ainda que de forma não literal, os Ibejis — orixás gêmeos da tradição iorubá. Ao mobilizar essa referência, o filme tensiona diretamente uma lógica moral que atravessa a modernidade ocidental: a mesma que regula o corpo, o desejo e, de modo menos evidente, a alimentação.

O que se come, como se come, quando se come e, sobretudo, quem pode comer tornam-se dispositivos de controle tão eficazes quanto as antigas interdições religiosas.

Na sociedade contemporânea, a moral já não atua prioritariamente pelo discurso do pecado cristão. Ela se deslocou para linguagens aparentemente neutras: saúde, performance, produtividade, estética e autocontrole. O corpo passa a ser tratado como projeto individual permanentemente disciplinado, vigiado e corrigido. Comer deixa de ser relação e se converte em cálculo. O alimento, antes elo entre pessoas, território e ancestralidade, transforma-se em índice de culpa ou virtude.

É nesse campo de controle simbólico que Pecadores se inscreve.

Ambientado no Delta do Mississippi, em 1932, o filme conduz o espectador a um território marcado por um pós-abolição inconcluso, onde a liberdade formal jamais significou o fim da violência racial. A comunidade negra permanece segregada, submetida a dispositivos cotidianos de terror operados por estruturas supremacistas como a Ku Klux Klan, enquanto tenta inventar, em meio à opressão, espaços possíveis de sobrevivência, cultura e alegria.

Nesse cenário, os irmãos gêmeos Smoke e Stack retornam à cidade e adquirem uma antiga serraria, transformando-a em um bar de blues. O gesto é profundamente simbólico. O blues — nascido do lamento, do trabalho forçado e da travessia atlântica — é ressignificado como projeto de autonomia, encontro e celebração coletiva. O bar não se limita a um empreendimento econômico: ele se afirma como território de refúgio, onde corpo, música e comunidade podem existir fora da vigilância branca, suspendendo, ainda que provisoriamente, a lógica da submissão e do medo.

É justamente nesse ponto que a chamada publicitária “Dance com o diabo” se torna problemática. À primeira vista, a frase sugere transgressão, risco e confronto com forças obscuras. No entanto, sob uma leitura afro-diaspórica, ela revela uma armadilha simbólica recorrente: a associação automática entre corpos negros, experiência, desejo e o imaginário do demoníaco.

Historicamente, o “diabo” é uma construção cristã mobilizada para disciplinar corpos, práticas e prazeres. Nas cosmologias africanas — especialmente na tradição iorubá — não existe uma figura equivalente. O mundo não se organiza por uma oposição rígida entre bem e mal, mas por forças em movimento, tensões e equilíbrios dinâmicos. Ao recorrer a essa linguagem, a chamada empobrece a complexidade do filme e reinscreve estereótipos coloniais que associam a experiência negra ao perigo, ao excesso e à transgressão condenável.

Pecadores, ao contrário, opera em outro registro.

Ao evocar os Ibejis, o filme desloca a noção cristã de pecado — linear, moralizante e punitiva — para um campo mais complexo, onde a transgressão não é falha moral, mas parte do processo de aprendizado e da própria experiência de existir. A narrativa se constrói na tensão entre inocência e culpa, jogo e punição, desejo e interdição.

Na cosmologia iorubá, os Ibejis não representam apenas a infância biológica. Eles são força vital ambígua: capazes de rir da ordem estabelecida, subverter normas e revelar verdades profundas por meio da brincadeira. Ensinam que o mundo não se organiza por oposições rígidas, mas por movimentos — vida e morte, riso e dor, excesso e escassez coexistem.

É exatamente nesse território que o filme opera. Seus personagens não são “pecadores” no sentido moral, mas corpos em experiência, atravessados por desejos, faltas e contradições. A infância evocada não é pureza idealizada, mas potência: lugar onde o erro não é desvio, mas método de conhecimento.

Essa leitura se aprofunda quando aproximamos o filme da culinária ritual iorubá. Nela, o valor não está na sofisticação excessiva, mas no gesto, no ritmo e na intenção. Trata-se de uma cozinha onde o tempo do preparo importa tanto quanto o alimento final. Comer não disciplina; ensina. Comer é também brincar, repetir, errar e refazer.

Assim como na cozinha ancestral, Pecadores parece menos interessado no desfecho moral e mais no percurso. O erro não é eliminado — ele é incorporado.

Diante disso, o filme lança uma pergunta fundamental ao espectador:

e se aquilo que chamamos de pecado for, na verdade, experiência não autorizada?

Nas culturas de matriz africana, não há separação radical entre corpo, espírito e cotidiano. Comer, brincar, desejar e transgredir fazem parte da mesma pedagogia da vida. A moral não se constrói pela repressão absoluta, mas pelo equilíbrio entre forças.

Ao dialogar com a cosmologia dos Ibejis e, ainda que simbolicamente, com a culinária iorubá, Pecadores se inscreve numa tradição estética que reconhece o corpo, o território e a ancestralidade como campos legítimos de conhecimento. O filme nos provoca a pensar que nem toda transgressão é queda — algumas são, na verdade, formas ancestrais de aprendizado.

Talvez, no fim, o gesto mais radical não seja “dançar com o diabo”, mas dançar com a experiência, com a ambiguidade e com a vida fora das armadilhas coloniais da culpa.

FICHA TÉCNICA – PECADORES (2025)

Título original: Sinners 

Título no Brasil: Pecadores 

Gênero: Terror sobrenatural / Drama histórico / Southern Gothic 

Ano de lançamento: 2025 

Duração: Aproximadamente 138 min (2h 18min) 

País: Estados Unidos 

Idioma: Inglês 

Classificação indicativa: 16 anos (no Brasil) 

Equipe Técnica

Direção: Ryan Coogler 

Roteiro: Ryan Coogler 

Produção: Ryan Coogler, Zinzi Coogler, Sev Ohanian 

Produção Executiva: Ludwig Göransson, Will Greenfield, Rebecca Cho 


Direção de Fotografia: Autumn Durald Arkapaw 

Design de Produção: Hannah Beachler 

Edição: Michael P. Shawver 

Figurino: Ruth E. Carter 

Trilha Sonora: Ludwig Göransson 

Estúdio: Proximity Media 

Distribuição: Warner Bros. Pictures 


Elenco Principal

Smoke / Stack Moore: Michael B. Jordan 

Mary: Hailee Steinfeld 

Sammie: Miles Caton 

Remmick: Jack O’Connell 

Annie: Wunmi Mosaku 

Pearline: Jayme Lawson 

Cornbread: Omar Miller 

Grace: Li Jun Li 

Delta Slim: Delroy Lindo

Outros Dados Relevantes

Orçamento

: US$ 90–100 milhões 


Bilheteria Mundial: Cerca de US$ 366+ milhões 

@charoth10


#elcocineroloko

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