O DESEJO COLONIZADO E A SOFISTICAÇÃO COMO PROMESSA
Para Mbembe, a modernidade colonial produziu não apenas hierarquias raciais e econômicas, mas um regime de sensibilidade: uma forma específica de perceber o mundo, de organizar o valor das coisas e de definir o que merece ser desejado. O colonialismo ensinou quem pode aspirar, quem deve imitar e quem deve permanecer no lugar do “inacabado”. Assim, o desejo passa a operar como tecnologia de poder.
Nesse regime, viver bem não é uma experiência situada no território, mas uma imagem projetada a partir do centro. A “vida boa” torna-se um ideal abstrato, frequentemente europeu, branco, urbano e consumista. O sujeito colonizado aprende a se ver como insuficiente e passa a buscar fora de si — nos objetos, nos estilos de vida e nos signos de prestígio — aquilo que lhe foi negado como possibilidade de existência plena.
Mbembe chama atenção para o fato de que essa colonização do imaginário não se impõe apenas pela violência direta, mas pela sedução. Ela oferece pertencimento simbólico sem alterar as estruturas que produzem a exclusão. Trata-se de uma inclusão condicionada: pode-se entrar, desde que se fale a língua do dominador, se adote seus valores e se deseje aquilo que ele deseja.
É nesse ponto que o colonialismo se torna mais eficaz. Quando o sujeito passa a administrar a própria vida segundo parâmetros que não lhe pertencem, a dominação já não precisa se impor de fora. Ela se atualiza internamente, no modo de sonhar, de nomear, de se projetar no mundo. O poder passa a operar não apenas sobre os corpos, mas através do desejo.
Ampliar essa reflexão com Mbembe nos obriga a reconhecer que a descolonização não é um evento histórico concluído, mas um processo inacabado. Ela exige a reapropriação do imaginário, a reconstrução dos critérios de valor e a recusa da ideia de que só existe dignidade quando se alcança o espelho do Outro.
Descolonizar, nesse sentido, não é negar o mundo, mas reinventar a possibilidade de habitá-lo a partir de si.
Quando pessoas historicamente privadas de bens materiais desejam desesperadamente acessar essa realidade, não buscam apenas consumo. Buscam reconhecimento ontológico — o direito de existir plenamente no mundo. O problema é que esse direito passa a ser mediado por signos impostos pelo centro do poder.
Em diálogo com Lacan, podemos dizer: o desejo não nasce da necessidade, mas da falta organizada. E essa falta é produzida socialmente. Deseja-se aquilo que o Outro — o mercado, a elite, a branquitude, a Europa simbólica — define como valioso. O objeto não importa tanto quanto o lugar que ele promete ocupar no mundo.
Mbembe chama atenção para esse processo ao analisar como o capitalismo tardio transforma a vida em mercadoria e o sujeito em projeto permanente de adequação. Vive-se numa lógica em que é preciso parecer antes de ser. A existência torna-se performance.
No campo da alimentação, isso se revela de forma contundente. A substituição do termo culinária por gastronomia não é apenas uma escolha estética. É um gesto político inconsciente. “Gastronomia” funciona como um significante colonial: aproxima do luxo, da legitimação acadêmica, do reconhecimento europeu. É uma palavra que promete saída da marginalidade simbólica.
Cria-se, assim, uma espécie de realidade mágica do discurso: acredita-se que, ao mudar o nome, muda-se a posição no mundo. Mas, como nos lembra Mbembe, o colonialismo opera justamente assim — oferecendo inclusão simbólica sem redistribuição real de poder. O corpo continua explorado, o trabalho precarizado, o saber expropriado. Apenas o vocabulário se sofistica.
O efeito mais perverso desse processo é o afastamento da própria raiz. A comida cotidiana, ancestral, de folha, de quintal e de fogo lento passa a ser vista como insuficiente, como algo a ser superado. O desejo deixa de apontar para o território e passa a mirar o centro.
Recusar essa lógica não é negar o desejo por dignidade. É recusar que a dignidade só seja reconhecida quando mediada pelo olhar do colonizador. Reafirmar a culinária como saber pleno é um gesto de descolonização do desejo.
Talvez, como sugere Mbembe, o verdadeiro gesto de liberdade hoje não seja ascender, mas interromper. Interromper a corrida pela legitimação externa. Interromper a necessidade de parecer. E, sobretudo, interromper a ideia de que a vida só vale quando se parece com a do Outro.
A sofisticação que importa não cabe na palavra. Ela vive no tempo, na memória, no território e na relação com a vida. E é ali que a cura começa.
https://youtu.be/aoeDxKxsZgY?si=-QADvPTKWInu3H40
@charoth10
#elcocineroloko
Achille Mbembe nos ajuda a compreender que o colonialismo não se encerra com a independência política. Ele se reinscreve nos corpos, nos desejos e nas formas de imaginar a vida boa. A colonização mais duradoura não é a do território, mas a do imaginário.
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