MÃE BERNADETE PRESENTE: O TERRITÓRIO RECONHECIDO, A LUTA QUE NÃO SE APAGOU

O reconhecimento oficial das terras da comunidade quilombola de Pitanga de Palmares, em Simões Filho, publicado pelo Incra por meio da Portaria nº 1.516, não é apenas um ato administrativo do Estado brasileiro. É, sobretudo, um gesto tardio de justiça histórica — e um marco que carrega o nome, o corpo e a luta de Mãe Bernadete Pacífico, liderança quilombola brutalmente executada em agosto de 2023, a mando do tráfico, segundo conclusão da Polícia Civil da Bahia.

O processo que agora resulta no reconhecimento das terras de Pitanga de Palmares teve início em 2008. São quase duas décadas de enfrentamentos burocráticos, silêncios institucionais e resistências cotidianas. Durante esse tempo, Mãe Bernadete foi uma das vozes que insistiram: sem território não há quilombo; sem terra não há futuro.

A área reconhecida, com 10,1621 hectares, integra o imóvel conhecido como Fazenda São José. Parte dela — cerca de 2,5 hectares — corresponde a áreas residuais identificadas como possivelmente devolutas do Estado da Bahia, que agora serão objeto de um procedimento específico de discriminação de terras em parceria com a Superintendência de Desenvolvimento Agrário (SDA). Cada linha técnica desse processo carrega, ainda que o Estado não o admita, o custo humano da demora.




O reconhecimento chega após a morte de quem mais o defendeu em vida. Essa é uma ferida aberta na história recente do país. Mas também é prova de que a luta de Mãe Bernadete não foi em vão. Seu nome está inscrito nesse território não por decreto, mas por pertencimento ancestral, por coragem política e por compromisso coletivo.

Homenagear Mãe Bernadete é afirmar que território é memória viva, é proteção, é continuidade. É dizer que a segurança jurídica que hoje se anuncia deveria ter vindo antes, como forma de preservar vidas — e não apenas reconhecer direitos após o sangue derramado.

Que Pitanga de Palmares siga existindo como território negro, quilombola e vivo.

Que Mãe Bernadete seja lembrada não apenas como vítima da violência, mas como guardadora do território, defensora da floresta e símbolo da luta quilombola contemporânea.

Mãe Bernadete, presente.

Hoje, amanhã e enquanto houver quilombo.


#elcocineoloko

@charoth10

Comments

Popular posts from this blog

MARLI BRITO E O PULSAR BAIANO NO SÃO VICENTE

OFICINA SOTOKO EM GENEBRA: OBSERVAÇÕES ANALÍTICAS SOBRE CULTURA ALIMENTAR E DIVERSIDADE