Hoje retorno a um território sagrado, não apenas como espaço físico, mas como campo de memória, escuta e aprofundamento sobre culinária ancestral e saberes negros. O Asipá se apresenta, mais uma vez, como chão de aprendizado, onde o alimento é linguagem, e cozinhar é um gesto de continuidade histórica.

Estarei com Necea, no Asipá, para uma conversa dedicada às plantas alimentícias tradicionais e à comida ancestral — entendidas não como recursos isolados, mas como tecnologias de sobrevivência, espiritualidade e resistência forjadas pelo povo negro ao longo do tempo.

"A velhinha e o acaçá" remete a um dos contos afro-brasileiros de Mestre Didi, especificamente a história da "vendedora de acaçás que ficou rica". Neste contexto, a culinária e o acaçá não são apenas alimentos, mas elementos centrais que simbolizam a ancestralidade, a cultura e a resistência do povo negro. 

A Velhinha e o Acaçá nos Contos de Mestre Didi

A Velhinha (personagem): Ela personifica a sabedoria ancestral feminina e a força da mulher negra que, através do seu trabalho e do alimento que produz, sustenta a vida e a comunidade. No conto, ela é uma vendedora que oferece mingau e acaçá.

O Acaçá (simbolismo): O acaçá é a comida ritual mais importante do Candomblé, uma pasta de milho branco (ou, às vezes, arroz) cozida e enrolada em folha de bananeira. Ele representa a própria vida e é oferecido a todos os Orixás, servindo como um elemento apaziguador que afasta doenças e outras mazelas.

A Narrativa: No conto, a velhinha, seguindo orientações de Ifá (o oráculo), recomeça a fazer seu mingau e acaçás, e sua dedicação e a força simbólica do alimento que ela vende acabam por transformá-la em uma pessoa rica e respeitada. A história é uma alegoria que valoriza o trabalho, a fé e a importância das tradições culturais africanas na formação da identidade baiana e brasileira. 

Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos) foi um renomado artista plástico, escritor e sumo sacerdote (Alápini) do culto à ancestralidade no Brasil e na África, que utilizou sua vasta obra para difundir a cultura baiana e as tradições do candomblé. Seus escritos e contos estão repletos de referências à culinária afro-brasileira, que para ele era mais do que sabor: era memória, tradição e herança viva. 

SANTOS): PLANTAS, CULINÁRIA E SABER ANCESTRAL

Mestre Didi compreendia as plantas como entidades vivas de conhecimento, portadoras de axé, memória e função social. Filho de Mãe Senhora, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, sua formação se deu no entrelaçamento entre o terreiro, a etnobotânica e a criação artística. Para ele, folhas não eram insumo: eram linguagem.

No universo nagô, que Mestre Didi ajudou a sistematizar e traduzir ao mundo, as ewés (folhas) organizam a vida. Curam, protegem, alimentam, equilibram. A culinária ritual — e também a do cotidiano — nasce dessa mesma lógica: escolher, tratar, combinar e respeitar. O gesto de cozinhar, como o de preparar um banho de folhas ou um remédio, exige tempo, silêncio, técnica e escuta.

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