FESTA DA CONCEIÇÃO DA PRAIA: SEM FESTA E SEM PRAIA
Por Nelson Varón Cadena
Por hábito vou chamar de Conceição da Praia. Não tem mais praia, disso há muito tempo, pelo menos um século e um tantinho, quando recuaram o mar para mais de cem metros com o aterro que, primeiro, deu lugar aos trapiches e celeiros e, após, às residências e escritórios do II Distrito Naval.
E nem festa é. Rotulada como festa popular, por hábito da mídia. Festa era quando tinha o Largo, deixou de ser Festa de Largo, no final do século XX. Hoje é uma procissão. Concorrida sim, com a mesma fé ancestral. Porém, sem o glamour dos vendedores de frutas, das barraquinhas de cortinas de linho, toalhas rendadas e cardápio baiano das quituteiras. Um dia substituídos por barracas de metal, churrasquinhos de gato, pasteis, cachorros quentes, frituras imundas, refrigerantes e capetas.
A origem e a data incerta
Não se sabe quando a festa começou a ser realizada, mas sabemos a sua origem: a partir da constituição da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, em 1645. A festa, em data incerta. Frei Agostinho de Santa Maria, contemporâneo, relata: “ Poucos anos depois que a ermida da Senhora da Conceição foi sublimada à grandeza de paróquia... festejam esses irmãos a sua Senhora com muita grandeza e grande aparato no seu dia 8 de dezembro... Se nomeia sempre por Juiz da Irmandade uma pessoa da família dos Aragões”.
Poucos anos depois, quando? O primeiro documento, arrolado pelo monsenhor Manoel de Aquino Barbosa, data de 1701. Ou seja, podemos concluir que a festa surge entre 1646 e 1700. Jaboatão cita os Aragões, membros da família Aragão, entre os organizadores da festa. Alguns desses Aragões construíram fortunas através do tráfico de escravos. A festa da Conceição da Praia, como a do Senhor do Bonfim e a do Rio Vermelho, nasceram por iniciativa de pessoas ligadas ao tráfico, o mais lucrativo negócio da época. Chamemos de patrocinadores.
Com certeza é a segunda festa mais antiga da cidade, data do segundo século da fundação de Salvador. Apenas a Festa de Corpus Christi, a precedeu, esta, celebrada ininterruptamente desde 1549. A festa da Conceição da Praia, nem sempre teve a sua igreja como local do culto religioso. Entre 1736 e 1765, longos 40 anos, a igreja foi edificada com a fachada atual, substituindo a primitiva capela.
Enquanto a obra era concluída, o culto da festa foi transferido para a igreja do Corpo Santo que mais tarde seria local do culto a Santa Bárbara, após o incêndio da capela do Morgado de Santa Bárbara.
O clero contra o sincretismo. Porrada.
A festa da Conceição da Praia foi o cavalo de batalha do clero local para afirmar o culto mariano, em detrimento de outros santos de devoção dos baianos que a igreja via com reservas porque sincretizados pelo candomblé: Santa Bárbara, São Jorge, São Roque, São Lázaro, São Gonçalo, São Sebastião e até o Senhor do Bonfim. E foi com esse objetivo que dom Romualdo de Seixas referendou, através de portaria publicada em 1857, a quase obrigatoriedade de participar do culto concedendo “indulgência plena” a quem visitasse a igreja.
Não deu certo. Os baianos continuaram a recorrer aos santos sincretizados quando preciso: na hora das chuvas intensas e trovoadas nada melhor do que o valei-me Santa Bárbara! E transferindo a sua devoção para outras festas. E mantendo a devoção à padroeira da Bahia, a margem do templo.
Dez anos após a portaria de Dom Romualdo, os baianos assistiram cenas de pugilato entre os músicos da Polícia Militar e os da banda dos Chapadistas, constituída por escravos libertos, as duas bandas contratadas pela irmandade. Na entrada da igreja as bandas postaram-se em frente à escadaria e foi então que o maestro da banda militar “ordenou” ao maestro dos Chapadistas que parasse de tocar o Hino Nacional, a prerrogativa seria dele. Pediu mais uma vez. Ouviu como resposta que os negros também tinham direito.
Então, ambas as bandas passaram a tocar o hino, uma querendo abafar a outra, até que o maestro da PM meteu a mão na cara no tocador de bombo que, ferido, foi parar num hospital. Houve briga generalizada, grande confusão e os Chapadistas levaram a pior (Nelson Cadena)
@charoth10
#elcocineroloko

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