COZINHA ANCESTRAL, GASTRONOMIA ELITISTA: O DISCURSO QUE APAGA AS MÃES DA COMIDA BRASILEIRA

Esse saber, transmitido por gestos, intuição e cuidado, transformou a cozinha em um território sagrado de acolhimento, memória e resistência, onde a comida é vínculo, cura e presença, e não mera mercadoria.

No entanto, o discurso oficial da “gastronomia” frequentemente apaga essa origem. 

Ao priorizar títulos, técnicas estrangeiras, estrelas e restaurantes luxuosos, ele elitiza e mercantiliza um conhecimento que sempre foi coletivo, afetivo e matriarcal. 

Essa narrativa nega a base popular e feminina da cultura alimentar, roubando a autoria e a dignidade de quem, historicamente, sustentou a alimentação do país com criatividade e com pouco.

Assim, enquanto a cultura alimentar real nasce do afeto, da escassez transformada em sustento e da transmissão silenciosa entre gerações, a “gastronomia” como discurso dominante mantém a desigualdade: invisibiliza as verdadeiras criadoras, valoriza formas de conhecimento eurocêntricas e transforma um ato de cuidado em produto de consumo para poucos.

Reconhecer e exaltar essas cozinheiras não é nostalgia, mas um ato político de reparação — uma reafirmação de que a autenticidade e a riqueza da comida brasileira estão no altar doméstico, e não apenas nos palcos da alta cozinha


Contar a história da cozinha Brasileira 

Por Maiza Souza

 pelas mãos das cozinheiras é um gesto político, afetivo e profundamente necessário. Antes dos títulos, das técnicas nomeadas em francês, das estrelas e dos aplausos, existiam mãos femininas sustentando o mundo. Mãos que aprenderam a medir pelo olho, a ouvir o ponto da comida pelo som, a reconhecer o tempo pelo cheiro. A cozinha sempre foi matriarcal. E isso nos foi roubado quando transformaram saber em mercadoria e apagaram quem sustentava o fogo.

A cozinha nunca foi apenas um espaço funcional. Ela sempre foi território. Território de acolhimento, de escuta, de cuidado. Foi ali que se chorou em silêncio enquanto o feijão cozinhava. Foi ali que se celebrou a vida com o que havia. Foi ali que se rezou sem nomear reza, mexendo a panela com intenção e fé. A cozinha sempre foi lugar sagrado, sem vaidade e sem desrespeito, porque quem cozinhava sabia que alimentar alguém é tocar sua história, seu corpo e sua memória.

Quando dizem que a cozinha Brasileira nasce nos grandes restaurantes, mentem. Ela nasce nas casas, nos quintais, nos fogões gastos, nas panelas herdadas. Nasce com as avós que sustentaram famílias inteiras com pouco. Com as mães que transformaram escassez em sustento. Com as tias que cozinharam para festas e lutos. Com as irmãs e primas que aprenderam cedo que cozinhar era também uma forma de amar e sobreviver.

Exaltar essas mulheres não é nostalgia. É reparação. É afirmar que nosso território sempre foi sagrado e continua sendo. É dizer que comida não é performance, é presença. Não é luxo, é vínculo. Comida é cura porque carrega intenção, memória e cuidado. Cura porque vem de mãos que conhecem o cansaço, mas ainda assim escolhem nutrir.

Recontar a história da gastronomia a partir das cozinheiras é devolver dignidade a quem sempre sustentou o mundo em silêncio. É lembrar que antes de qualquer palco, a cozinha já era altar. E sempre será.


Iza Souza ✨️ 

Manjar Ancestral 🐓 🕊 🕯



@charoth10

#elcocineroloko

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