ABADÔ DE NANÃ: DOCE ANCESTRAL DE TERREIRO DE MS CONQUISTA PRÊMIO NACIONAL E PROMOVE RESISTÊNCIA CULTURAL
A premiação oficial ocorreu em um evento na Casa Niemeyer, em Brasília, no dia 17 de dezembro de 2025, reunindo comunidades de todas as regiões do Brasil.
🏆 O Edital e a Vitória de Mato Grosso do Sul
O edital "Sabores e Saberes" foi uma iniciativa inédita da Fundação Cultural Palmares, em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, para valorizar e fortalecer a gastronomia das comunidades tradicionais de matriz africana. Foram selecionados 11 projetos por região, totalizando 55 premiados em todo o país. O Ilê Asé Efunsolá de Ajagunã foi a única representante de Mato Grosso do Sul entre os 45 terreiros presentes no evento de premiação em Brasília.
A Premiação
Cada iniciativa vencedora recebeu:
· Um prêmio em dinheiro de R$ 13.000,00.
· Um kit de cozinha industrial, com equipamentos como freezer vertical, fogão semi-industrial, processador e liquidificador industrial, bancada de inox e forno micro-ondas.
Com o recurso, o terreiro de Campo Grande adquiriu 16 kits de cozinha industrial, que vão potencializar projetos sociais e a produção comunitária.
🙏 O Significado do Abadô de Nanã
Mais do que uma simples receita, o Abadô de Nanã é um alimento carregado de espiritualidade, memória e identidade.
· Homenagem à ancestralidade: O doce é uma oferenda a Nanã, considerada no candomblé a orixá mais velha, a "avó" primordial associada à terra, ao barro e à criação. O babalorixá Geiser Barreto escolheu a receita em homenagem à sua própria avó falecida, dona Leda, que era uma filha de Nanã e adorava doces.
· Conexão com o território: A receita utiliza mandioca amarela, ingrediente fundamental na cultura alimentar de Mato Grosso do Sul. Essa escolha cria uma poderosa analogia: assim como Nanã está ligada ao barro primordial, a mandioca também nasce da terra fértil.
· Comida de afeto e acolhimento: De sabor similar a um beijinho, o doce é preparado com mandioca, coco e açúcar, e não leva leite, sendo acessível a pessoas com intolerância à lactose. Sua simplicidade e sabor traduzem o conceito de um "doce de vó", que acolhe e abraça quem consome.
A vitória no edital é entrelaçada com histórias pessoais de superação e fé dentro do terreiro:
· Babalorixá Geiser Barreto: Líder do Ilê, viajou para Brasília para representar a casa. Ele vê o reconhecimento como um ato de resistência cultural do candomblé no Centro-Oeste, região onde muitas vezes essas comunidades enfrentam falta de acesso e suporte.
· Glória Dayane: Filha de santo responsável por preparar o doce no vídeo inscrito no edital. Ela chegou ao terreiro em um momento difícil, desempregada e com três filhos, e encontrou acolhimento. Anos depois, sua própria filha foi reconhecida como ekedi (cargo de cuidado) de Nanã, fortalecendo sua ligação espiritual com a receita.
A produção do vídeo foi um trabalho coletivo, coordenado pela produtora cultural e filha de santo Mariane Lopes, que já havia dirigido um documentário sobre o terreiro. O vídeo não apenas mostra o passo a passo culinário, mas narra a história de vida da comunidade, usando a comida como ponte para democratizar o acesso à cultura afro-brasileira.
✨ Impacto e Legado da Premiação
A conquista do Ilê Asé Efunsolá de Ajagunã vai muito além do prêmio em si. Ela representa:
· Valorização do patrimônio imaterial: O edital coloca em evidência a culinária afro-brasileira como um legado cultural que precisa ser preservado.
· Fortalecimento da economia criativa: Os recursos e equipamentos abrem caminho para a geração de renda dentro da comunidade, através da venda dos alimentos e de futuros projetos sociais.
· Combate ao preconceito: Ao compartilhar seus saberes e afetos através da comida, o terreiro quebra estereótipos e convida a sociedade a conhecer e respeitar a cultura e a espiritualidade de matriz africana.
Para os integrantes do terreiro, a trajetória do simples doce de mandioca até o palco nacional em Brasília é a prova de que a tradição, o afeto e a resistência são ingredientes poderosos para construir um futuro com mais reconhecimento e dignidade.
https://www.campograndenews.com.br/lado-b/sabor/o-doce-de-vo-feito-com-mandioca-e-coco-leva-terreiro-a-vitoria-nacional
@charoth10
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