A FAROFA, A HUMILHAÇÃO E A FABRICAÇÃO DA “POBREZA”

Esse é um dos dispositivos mais eficientes do poder colonial e de suas continuidades. No campo da cultura alimentar, ele atua transformando práticas de sobrevivência, inteligência coletiva e adaptação em signos de atraso, vulgaridade e vergonha.

A farofa ocupa exatamente esse lugar.

Aquilo que foi base alimentar — farinha, gordura, engenho — passa a ser convertido em caricatura. Não se combate a farofa frontalmente; ridiculariza-se quem a come. Surge, então, a figura do “farofeiro”, não como categoria culinária, mas como construção moral: o sujeito desqualificado, sem modos, sem refinamento, sem lugar na ordem simbólica da “boa comida”.

Esse processo não é espontâneo. Ele acompanha a consolidação, no Brasil urbano do século XX, de uma hierarquia alimentar profundamente racializada e classista. Enquanto o trigo, o vinho, o queijo curado e a manteiga eram elevados à condição de civilização, a farinha de mandioca — indígena, tropical, cotidiana — era associada à carência. Comer farinha não significava apenas comer diferente: significava falhar no projeto civilizatório.

O termo “farofeiro” emerge, então, como escatologia da cultura alimentar brasileira. Ele passa a nomear tudo aquilo que deveria ser contido: o excesso, a mistura, o improviso, o cheiro, o gesto que não pede permissão. O farofeiro é aquele que não se encaixa na mesa branca, higienizada, europeizada. É o corpo que come com a mão, que mistura o prato, que não respeita a liturgia do talher.

A humilhação cumpre sua função: domesticar a insubordinação.

Transformar a farofa em sinônimo de pobreza não é descrever uma condição material, mas produzi-la simbolicamente. A pobreza, nesse caso, não está na comida, mas no olhar colonial que hierarquiza os alimentos conforme sua origem, sua circulação global e seu valor de mercado. A farinha de mandioca alimentou populações inteiras por séculos; sustentou quilombos, aldeias, travessias, lavouras, cidades. Ainda assim, foi rebaixada ao lugar do “quebra-galho”, do “enche-barriga”, do que se come quando não há opção.

Esse rebaixamento não é neutro: ele atinge corpos específicos. Corpos negros, indígenas, periféricos. A comida vira marcador social, e o prato denuncia o lugar que o sujeito deve ocupar.

Não por acaso, quando a farofa atravessa a fronteira do prestígio — reaparecendo em restaurantes, menus autorais, releituras “gourmet” — ela precisa ser purificada. Recebe castanhas “nobres”, manteiga francesa, nomes estrangeiros. A mandioca sozinha ainda incomoda. O farofeiro, então, não é convidado para a mesa: apenas sua comida, agora higienizada, é aceita.

O riso, o deboche, o meme cumprem o papel final. A cultura dominante não precisa mais proibir; basta zombar. Aquele que insiste na farofa passa a carregar o estigma da falta: falta de classe, de gosto, de educação. A insubordinação é neutralizada pelo constrangimento.

Mas a farofa persiste.

Ela continua no prato, no churrasco, na marmita, na ceia, no gesto cotidiano que se recusa a desaparecer. E essa persistência revela algo fundamental: a pobreza nunca esteve na farofa, mas na incapacidade colonial de reconhecer inteligência onde não há verniz europeu.

Reivindicar a farofa hoje não é nostalgia. É reposicionar a cultura alimentar brasileira fora da lógica da vergonha. É devolver dignidade ao que foi humilhado para manter intacta uma hierarquia social. É afirmar que a mistura, o improviso e a adaptação não são sinais de atraso — são tecnologias históricas de sobrevivência.

A farofa, mais uma vez, não pede licença.

Ela segue como gesto insurgente. E talvez seja justamente por isso que nunca deixou de incomodar.


@charoth10


#elcocineroloko




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