SELO SALVADOR RAIZ

O objetivo é destacar quem ajuda a preservar a essência da cidade — seus sabores, ritmos, ofícios e modos de viver —, fortalecendo o turismo cultural e impulsionando a economia criativa local.

De acordo com o projeto, o selo será concedido a negócios ligados à culinária, música, arte, arquitetura, artesanato, literatura, religião e outras expressões que representem o patrimônio imaterial de Salvador. 

Além disso, a proposta prevê a criação de um mapa digital público, que reunirá os estabelecimentos contemplados e funcionará como um roteiro cultural e turístico oficial, com informações sobre a relevância histórica e social de cada local. O texto também determina que o Poder Executivo regulamente os critérios técnicos e defina os órgãos responsáveis pela análise dos pedidos e pela concessão do selo, que terá validade determinada.

O projeto autoriza ainda a formação de parcerias com universidades, entidades culturais e instituições do setor turístico, garantindo avaliação técnica e apoio institucional à iniciativa. Para o vereador Bacelar, o Selo Salvador Raiz é uma resposta às transformações urbanas e à necessidade de proteger a identidade cultural da cidade. “Precisamos criar instrumentos que protejam nossa cultura de raiz, incentivem o empreendedor local e mantenham Salvador como referência mundial de diversidade, criatividade e identidade”, afirmou o parlamentar.

Ao reconhecer empreendimentos que preservam práticas e saberes tradicionais, a proposta busca valorizar a autenticidade e o pertencimento, destacando a importância das expressões culturais que resistem às pressões da modernização e da homogeneização. 

O selo pode se tornar um importante instrumento de visibilidade para quem mantém viva a memória e a alma de Salvador — de restaurantes de culinária ancestral a mestres de ofícios, de rodas de samba a ateliês de arte popular —, fortalecendo o vínculo entre cultura, economia e território.

Com a criação do mapa digital, o projeto também oferece uma ferramenta estratégica para o turismo cultural e de base comunitária, permitindo que moradores e visitantes conheçam e valorizem experiências genuínas da cidade. 

Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de critérios claros e inclusivos, que contemplem não apenas empreendimentos formais, mas também iniciativas comunitárias, quilombolas e populares que representam o verdadeiro espírito da capital baiana.

Se aprovado, o Selo Salvador Raiz poderá se tornar uma política pública relevante de reconhecimento e fortalecimento das identidades locais, contribuindo para manter viva a essência de Salvador — uma cidade cuja maior riqueza está em sua gente, suas tradições e sua capacidade de transformar memória em futuro.

O Projeto de Lei nº 214/2025, que propõe a criação do Selo Salvador Raiz, nasce com uma intenção bonita: reconhecer e valorizar quem mantém viva a alma cultural da cidade. No papel, a ideia parece um respiro necessário em meio à velocidade das transformações urbanas, ao apagamento de tradições e à crescente padronização das experiências. Mas, ao olharmos com mais cuidado, percebemos que a potência dessa proposta depende menos do selo em si — e mais de como ele será construído, por quem e para quem.

O projeto reconhece que há em Salvador um conjunto de práticas, ofícios e saberes que resistem ao tempo: as comidas de quintal, os terreiros, as rodas de samba, as feiras, os artesãos, os mestres e mestras que fazem da cidade um território vivo. Dar visibilidade a esses agentes culturais é, sem dúvida, um gesto político importante. No entanto, há um risco sempre presente quando o Estado se propõe a “chancelar” o que é autêntico: transformar o que é vivo em vitrine.

Um selo pode gerar reconhecimento, mas também pode domesticar. Pode incluir, mas também excluir. Depende de quem define os critérios, de como se avalia o que é “raiz” e de quem tem voz nesse processo. Se o selo servir apenas como um emblema turístico, ele corre o risco de folclorizar a cultura, transformando práticas ancestrais em produto de consumo para visitantes — sem retorno real para as comunidades que as mantêm vivas.

A ideia de criar um mapa digital com os empreendimentos contemplados é promissora, sobretudo se for construída com participação popular e diálogo com quem está na base: as marisqueiras, os quilombolas, os mestres de capoeira, as cozinheiras de tabuleiro, as bordadeiras, os artistas de rua. Esse mapa, se feito com escuta e cuidado, pode se tornar um instrumento de memória e resistência, um registro da Salvador que não se deixa apagar.

Mas, para isso, o Selo Salvador Raiz precisa ir além do reconhecimento simbólico. É necessário garantir benefícios concretos: acesso a editais, prioridade em políticas públicas, incentivos fiscais, apoio à comercialização, visibilidade qualificada. Sem isso, o selo corre o risco de se tornar apenas uma boa intenção, mais uma medalha que embeleza o discurso sem transformar a realidade.

Salvador é uma cidade que pulsa ancestralidade — e a força dessa ancestralidade não cabe em formulários burocráticos. O que chamamos de “raiz” é um modo de existir: é cozinhar com o que se tem no quintal, cantar enquanto trabalha, cuidar do outro como parte do ofício. É uma prática que não se mede por critérios técnicos, mas pela relação com o território, com a coletividade e com a memória.


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