RECEITAS DA RUÍNA: COMO A DESTRUIÇÃO DA CULINÁRIA SINALIZA O CAMINHO PARA O GENOCÍDIO

Por Aryn Baker

11 de novembro de 2025

Em conflitos ao redor do mundo, a comunidade internacional muitas vezes monitora números de baixas, movimentos de tropas e a destruição de infraestrutura crítica. Raramente, porém, ela presta atenção ao ataque sistemático a um aspecto fundamental da vida humana: a comida. No entanto, é precisamente aí, nas cozinhas, nos mercados e nos campos agrícolas, que os primeiros sinais de um genocídio iminente costumam aparecer.

Em entrevista exclusiva para a World Politics Review, o veterano investigador de direitos humanos Michael Shaikh apresentou um argumento sombrio e convincente: as tradições culinárias não são meras vítimas colaterais do caos da guerra, mas sim alvos primários em campanhas de apagamento cultural. Ele vai além, afirmando que "a destruição da culinária não é um dano colateral, mas sim o primeiro estágio do genocídio".

A Culinária como Coluna Vertebral da Cultura

Para entender a gravidade dessa afirmação, é necessário elevar nosso conceito de culinária. Ela não é apenas sustento; é um idioma silencioso, um arquivo vivo de história, um mapa de afetos e um pilar da identidade coletiva.

· Memória e Transmissão: Uma receita é um artefato cultural transmitido oralmente, de geração em geração. Ela carrega histórias de migração, adaptação e resistência. O ato de cozinhar um prato tradicional é uma performance da memória coletiva.

· Conexão com a Terra: Ingredientes nativos, técnicas de cultivo e métodos de caça estão profundamente enraizados em um território específico. Destruir essa conexão – queimando oliveiras seculares, envenenando solos ou impedindo o acesso a áreas de pesca – é um ataque direto à soberania cultural e espiritual de um povo.

· Ritual e Comunidade: As refeições são momentos de congregação. Festivais, funerais e celebrações religiosas são frequentemente definidos por comidas específicas. Proibir essas práticas é dispersar a comunidade e profanar seus rituais mais sagrados.

O Manual do Apagamento: Como a Culinária é Destruída

Shaikh detalha como a destruição culinária é metódica e se encaixa perfeitamente nos estágios de preparação para o genocídio, conforme delineados por estudiosos como Gregory Stanton.

1. Classificação e Desumanização: O processo começa com a retórica. A culinária do "outro" é ridicularizada como "primitiva", "nojenta" ou "impura". Este é um passo crucial para a desumanização. Se a comida de um povo é considerada repulsiva, fica mais fácil ver o povo em si como inferior ou menos que humano.

2. Simbolização e Perseguição: Os símbolos da diferença são atacados. Mercados que vendem ingredientes tradicionais são bombardeados. Moedas de grãos e sementes heirloom são destruídas. Cozinheiros e detentores do conhecimento culinário – frequentemente mulheres idosas – são assassinados ou ameaçados, quebrando a corrente de transmissão do saber. A imposição de uma dieta estrangeira torna-se uma ferramenta de subjugação e uma demonstração de poder.

3. Preparação e Extermínio: Nesta fase, o ataque à culinária deixa de ser simbólico e torna-se uma arma de fome e desorientação em massa. A destruição de silos, como visto na Ucrânia, ou o bloqueio de ajuda alimentar, como ocorre em Gaza, não são apenas táticas de guerra; são tentativas de apagar uma cultura da face da Terra, privando-a não apenas de calorias, mas de sua identidade.

Casos Concretos: Da História ao Presente

A tese de Shaikh é corroborada por exemplos históricos e contemporâneos:

· Holodomor (Ucrânia, 1932-33): O regime stalinista não apenas confiscou grãos, mas visou especificamente a base da vida camponesa ucraniana. A fome foi um instrumento para esmagar a identidade nacional, destruindo o campesinato, seus costumes e sua culinária autônoma.

· Povos Indígenas nas Américas: A colonização forçou a substituição de dietas diversificadas baseadas em milho, batata e mandioca por monoculturas estrangeiras. Isso não só causou desnutrição, mas também desintegrou estruturas sociais e conhecimento ecológico milenar.

· Ucrânia (2022-presente): Os ataques russos a silos de grãos, mercados e terras agrícolas são uma tentativa clara de destruir um dos pilares da economia e identidade ucranianas. O grão é um símbolo nacional; sua destruição é uma mensagem clara de aniquilação cultural.

· Palestina: A destruição de olivais seculares – árvores que são símbolos de resistência e conexão com a terra – e o ataque a cozinhas e padarias que preparam pães tradicionais são vistos como parte de um esforço mais amplo de apagamento da presença palestina.

A Cozinha como Trincheira: A Resiliência da Resistência Culinária

Se a cozinha é um campo de batalha, então também é uma trincheira de resistência. Em todo o mundo, comunidades sob ameaça respondem preservando suas tradições alimentares com um fervor revolucionário.

· Arquivos Culinários: Organizações documentam receitas em risco de extinção, criando bancos de dados digitais à prova de bombas.

· Jardins de Resistência: Mesmo em condições de cerco, pessoas cultivam ervas e vegetais tradicionais em varandas e lotes vagos, recusando-se a deixar morrer sua conexão com a terra.

· Cozinhas Comunitárias: Em campos de refugiados ou cidades sitiadas, cozinhar coletivamente torna-se um ato de solidariedade, uma forma de manter a comunidade unida e afirmar: "Nós ainda estamos aqui, e nosso paladar nos define".

Conclusão: Uma Chamada à Vigilância

A advertência de Michael Shaikh é clara: a comunidade internacional deve aprender a ler os sinais. Quando os mercados de uma minoria são queimados, quando suas colheitas são destruídas e suas receitas são proibidas, não estamos testemunhando simples brutalidade de guerra. Estamos testemunhando os estágios iniciais de um genocídio.

Proteger uma cultura significa proteger seu direito a existir, a celebrar e a se alimentar de acordo com suas próprias tradições. Prestar atenção às "receitas da ruína" pode ser nossa melhor esperança para impedir que a ruína se complete. No fim, a luta pela sobrevivência cultural não é travada apenas nos corredores da diplomacia ou nos campos de batalha, mas, de forma profunda e persistente, nos fogões e nas mesas de jantar de um povo.

No Brasil, não podemos esquecer que uma das primeiras medidas do governo Bolsonaro foi o fim do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) e a extinção do estoque regulador de alimentos foram, de fato, duas das primeiras e mais simbólicas medidas do governo Bolsonaro (iniciado em 2019) na área de políticas sociais e agrárias.

As medidas de extinguir o CONSEA e o estoque regulador representaram uma mudança profunda na orientação das políticas de alimentação e agricultura no Brasil. 

Elas simbolizaram o abandono de um modelo baseado na participação social, na soberania alimentar e no Estado como regulador e garantidor do direito à alimentação, substituindo-o por uma visão que priorizou o mercado, o corte de gastos sociais e o afastamento da sociedade civil da gestão pública. Essas ações são apontadas por especialistas como um dos fatores que contribuíram para o agravamento da fome no Brasil no período posterior.

Leia o texto original 

https://www.worldpoliticsreview.com/recipes-of-ruin-food-traditions-and-the-struggle-for-cultural-identity/



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