🌿 Raiz e Permanência: o ciclo da mandioca em Gurupá (1960–1963)

Fotografias de Clarence Sorensen

Essas fotografias formam um ensaio sobre o ciclo da mandioca — raiz que alimenta corpos, histórias e pertencimentos.

Em cada gesto — ralar, prensar, torrar — pulsa a sabedoria das mulheres e homens amazônidas, que transformam a natureza em cultura.

São imagens que não apenas documentam o trabalho, mas narram uma cosmologia do alimento, em que o tempo, o território e o corpo são instrumentos de conhecimento e sobrevivência.

Entre 1960 e 1963, o fotógrafo norte-americano Clarence Sorensen registrou, em Gurupá, interior do Pará, o cotidiano da produção artesanal da mandioca — alimento que sustenta, há séculos, a base cultural e alimentar da Amazônia e do Brasil.

Suas imagens compõem um retrato sensível e preciso de um modo de vida enraizado no território, onde técnica, corpo e natureza se entrelaçam em gestos de continuidade.

Longe de qualquer exotismo, Sorensen observa com respeito e atenção o ciclo da mandioca: da colheita ao engenho, do trabalho coletivo à intimidade dos quintais. Seu olhar se detém na materialidade dos objetos — o cocho, o ralador, o cesto, o tronco escavado —, mas também nos vínculos humanos que organizam a vida em torno do alimento.

A mandioca, nas fotografias, é mais do que uma raiz: é símbolo de permanência. Cada gesto — ralar, prensar, torrar — guarda a pedagogia do cotidiano, onde o aprendizado se transmite entre gerações. As mulheres, sobretudo, emergem como centro de um saber técnico e simbólico, mediando a transformação da natureza em sustento e memória.

Entre elas e o ambiente, o fotógrafo revela um pacto silencioso: o corpo como instrumento de conhecimento e resistência.

As cenas da família, da criança e do pássaro ampliam o sentido da roça como espaço de convivência e afeto. Ali, o trabalho e a ternura se confundem. O alimento, produzido em comunidade, torna-se parte de uma cosmologia em que o tempo é cíclico e o território é extensão da vida.

Reunidas, essas imagens formam um ensaio sobre o gesto ancestral — uma coreografia de corpos, utensílios e elementos naturais que narram a continuidade de um saber amazônico.

Mais do que documentar um ofício, Sorensen registra um modo de existir: o da relação equilibrada entre o humano e a terra, onde o alimento é memória, e a mandioca, raiz do mundo.

Na primeira imagem, dois homens trabalham em uma casa de farinha coberta por palha, estrutura típica amazônica.

Um deles movimenta uma roda de madeira que aciona o ralador mecânico, enquanto o outro alimenta o aparelho com raízes de mandioca descascadas.

Em primeiro plano, uma grande gamela metálica indica o espaço onde a massa será torrada para se transformar em farinha — alimento símbolo da região.

A imagem traduz a sinergia entre força humana e engenho rudimentar, sustentando uma tecnologia tradicional adaptada ao ambiente.

Na segunda cena, um grupo de mulheres e crianças participa do descascamento da mandioca.

Elas estão sentadas sobre o chão batido, cercadas por cestos de palha cheios de raízes brancas e escuras — mandioca brava e mansa.

O trabalho é feito em comunidade, com as crianças aprendendo desde cedo a lidar com o alimento e a terra.

A fotografia revela o caráter familiar e pedagógico da roça, onde o saber alimentar é transmitido de geração em geração, na prática do cotidiano.

A terceira imagem mostra uma mulher sozinha, concentrada na etapa de moagem da mandioca.

Ela empurra as raízes contra o ralador, cuja estrutura de madeira repousa sobre um tronco escavado — um canoão transformado em utensílio agrícola.

O cenário é simples e funcional, protegido apenas por uma cobertura de palha.

Essa imagem sublinha a centralidade feminina nas práticas alimentares e o domínio técnico das mulheres na manipulação da mandioca — desde o plantio até a farinha pronta.

Nessa cena mais íntima e poética, uma menina senta-se no alpendre de uma casa de taipa, segurando um pequeno pássaro pousado em seu braço.

A luz natural recorta seu rosto sereno, e o colar simples no pescoço reforça o vínculo com o cotidiano ribeirinho.

A presença do pássaro sugere o equilíbrio entre o humano e o ambiente, o convívio harmônico com a floresta e seus seres.

É uma imagem de ternura e resistência silenciosa, onde infância e natureza se confundem.

Por fim, uma mulher idosa rala mandioca com as próprias mãos, inclinada sobre o cocho de madeira.

A força do corpo, a textura da raiz e a luz filtrada entre as folhas revelam um ritual de continuidade: o gesto antigo que sustenta o alimento e a memória.

Atrás dela, outra mulher trabalha ao redor da prensa de massa, enquanto uma galinha ciscando no chão completa a cena de vida rural.

É um retrato da sabedoria prática, da tradição viva que molda o modo de existir nas margens dos rios amazônicos.


@charoth10


#elcocineroloko

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