O cheiro delicioso da maniçoba em preparo me guiou até o portão da casa de Marlene da Costa, no Quintal de Yayá, onde o tempo parece desacelerar para dar lugar à memória.
Foi nesse clima de intimidade com o tempo que ela compartilhou um dos alicerces de sua cultura: o provérbio iorubá “Ilé là ń wò, kí a tó sọmọ lórúkọ”. “Quer dizer”, “que é a casa, o contexto da família e da comunidade, que a gente olha antes de dar um nome à criança”.
Ali, naquela cozinha, o provérbio ganhava corpo, sabor e cheiro. A “casa” tornava-se todo aquele patrimônio imaterial — as histórias dos mais velhos, os segredos das ervas, o ciclo das festas, o sabor das comidas que são memória afetiva transformada em sustento.
É esse “olhar para a casa” que temos praticado a cada visita. É esse o nome que buscamos dar à nossa própria identidade: um nome que sabe de onde veio, para poder decidir para onde vai.
Antes de ser um prato, a maniçoba de Marlene é um gesto de resistência, um ato de narrar quem somos. E cada garfada é, no fim das contas, uma forma de não deixarmos de ser quem somos.
Ainda dentro da programação que articula a presença francesa na Bahia, tive a oportunidade de testemunhar um encontro singular entre @marinajost e Elena, integrantes do projeto @lesgrandetables, e duas referências vivas da culinária popular baiana: Vovó Cici e Marlene da Costa.
O que seria apenas um café da tarde tornou-se um ritual de afeto, memória e transmissão — como só as cozinhas de quintal sabem oferecer.
Fiquei muito feliz em reencontrar Marina e Elena, que chegaram com a escuta aberta e uma curiosidade genuína sobre o fio que costura as tradições afro-baianas às práticas contemporâneas da culinária. Marina, aliás, desenvolve um trabalho precioso na reconstrução simbólica das teias culinárias de África por meio de residências e workshops.
Em Marseille, participei de uma oficina com ela sobre a culinária tradicional do Magrebi, onde preparei nosso cuscuz — uma lembrança bonita, que guardo com carinho.
Vovó Cici, com sua calma firme, compartilhou histórias que atravessam continentes: suas vivências na África, sua relação com Pierre Verger e os fios de memória que seguem pulsando de geração em geração. Falou não apenas sobre comida, mas sobre cuidado, tempo e a ética do fazer bem-feito.
Em um momento de pura beleza, cantou canções de encantamento das folhas, revelando a força sutil que habita cada uma delas. Explicou seus usos, seus benefícios para o corpo e para a saúde, e lembrou — com a sabedoria que só as Mestras têm — que essas folhas também nos pertencem como alimento, como cura e como herança.
Marlene, com sua doçura, precisão e mãos divinas, lembrou que certas preparações exigem paciência — aquela paciência que o neoliberalismo tenta extinguir, mas que resiste teimosa nas cozinhas das mulheres negras.
Cada dia mais dedicada ao uso das plantas alimentícias tradicionais, Marlene vem recebendo grupos interessados em conhecer de perto esses saberes e pratos.
Da força do seu quintal para a mesa — simples e generosa — chegaram bolo de aipim, mingau, geleia de amoras, beijus, tapioca com coco, bolachinhas de goma, café forte e chá de erva-cidreira, além de um punhado de folhas recém-colhidas. Era mais que um café: era um arquivo vivo, uma conversa ao redor do fogo, uma aula sobre como se constrói e se defende uma culinária que se recusa a ser apagada.
Falamos — inevitavelmente — sobre Culinária Tradicional, sobre as plantas alimentícias que sustentam nossa cultura, sobre quintais, avós, o peso simbólico dos pilões e das panelas herdadas.
Foi então que Vovó Cici trouxe à mesa o que chamou, em tom de fina ironia, de “afrocontemporaneidades” — essas invenções que muitas vezes se afastam das raízes para atender modismos passageiros. Manifestou sua preocupação com certas distorções que vêm ganhando espaço, como o acarajé rosa, símbolo de um desvio que, para ela, compromete a essência da culinária ancestral e o respeito às tradições que sustentam esse fazer.
Marina ouviu e partilhou; as Mestras ensinaram e acolheram.
E ali ficou evidente aquilo que a França, tantas vezes fascinada pela Bahia, sempre busca: autenticidade, saberes ancestrais e a força de uma transmissão feminina e comunitária.
Este encontro integra o movimento maior que o Grupo de Estudos sobre a Culinária Baiana vem articulando: criar pontes entre Brasil, África e França, sempre colocando no centro as mulheres que sustentaram — e sustentam — o sabor e o espírito da nossa terra.
Saí de lá com o coração aquecido, com a certeza de que essas trocas ainda vão render frutos importantes. Porque, quando as Mestras falam, o tempo se expande — e quando o mundo escuta, algo profundo se transforma.
Em breve, compartilharei mais dessa caminhada.
Há histórias e saberes que precisam ser contados com calma, como um café coado no pano, sem pressa.
Le parfum délicieux de la maniçoba en préparation m’a conduit jusqu’au portail de la maison de Marlene da Costa, dans le Quintal de Yayá, où le temps semble ralentir pour laisser place à la mémoire.
Le parfum délicieux du maniçoba en préparation m'a guidée jusqu'au portail de la maison de Marlene da Costa, dans le Quintal de Yayá, où le temps semble ralentir pour laisser place à la mémoire.
C'est dans cette atmosphère d'intimité avec le temps qu'elle a partagé l'une des pierres angulaires de sa culture : le proverbe yoruba « Ilé là ń wò, kí a tó sọmọ lórúkọ ». « Cela veut dire », expliqua-t-elle, « que c'est la maison, le contexte de la famille et de la communauté, que l'on considère avant de donner un nom à l'enfant ».
Là, dans cette cuisine, le proverbe prenait corps, saveur et odeur. La « maison » devenait tout ce patrimoine immatériel — les histoires des anciens, les secrets des herbes, le cycle des fêtes, la saveur des nourritures qui sont une mémoire affective transformée en sustance.
Dans le cadre de la programmation qui articule la présence française en Bahia, j’ai eu l’occasion d’assister à une rencontre singulière entre @marinajost et Elena, membres du projet @lesgrandetables, et deux références vivantes de la cuisine populaire bahianaise : Vovó Cici et Marlene da Costa.
Ce qui devait être un simple café de l’après-midi s’est transformé en véritable rituel d’affection, de mémoire et de transmission — comme seules les cuisines de cour savent l’offrir.
J’ai été très heureux de retrouver Marina et Elena, venues avec une écoute ouverte et une curiosité sincère envers le fil qui relie les traditions afro-bahianaises aux pratiques culinaires contemporaines. Marina, d’ailleurs, développe un travail précieux de reconstruction symbolique des toiles culinaires d’Afrique à travers des résidences et des ateliers.
À Marseille, j’ai participé à un de ses ateliers sur la cuisine traditionnelle du Maghreb, où j’ai préparé notre couscous — un souvenir tendre que je garde avec affection.
Vovó Cici, avec son calme ferme, a partagé des histoires qui traversent les continents : ses expériences en Afrique, sa relation avec Pierre Verger, et les fils de mémoire qui continuent de vibrer de génération en génération.
Elle a parlé non seulement de nourriture, mais aussi de soin, de temps et de l’éthique du travail bien fait.
Dans un moment d’une grande beauté, elle a chanté des chants d’enchantement des feuilles, révélant la force subtile qui habite chacune d’elles. Elle en a expliqué les usages, les bienfaits pour le corps et la santé, et a rappelé — avec cette sagesse propre aux Maîtresses — que ces feuilles nous appartiennent aussi comme nourriture, comme soin et comme héritage.
Marlene, avec sa douceur, sa précision et ses mains divines, a rappelé que certaines préparations exigent de la patience — cette patience que le néolibéralisme tente d’effacer, mais qui résiste obstinément dans les cuisines des femmes noires.
De plus en plus engagée dans l’usage des plantes alimentaires traditionnelles, Marlene accueille aujourd’hui des groupes désireux de découvrir ces savoirs et ces plats de près.
De la force de son jardin jusqu’à la table — simple et généreuse — sont arrivés gâteau de manioc, mingau, confiture de mûres, beijus, tapioca à la noix de coco, biscuits de fécule, café fort et tisane de citronnelle, ainsi qu’une poignée de feuilles fraîchement cueillies.
C’était plus qu’un café : c’était un archive vivant, une conversation autour du feu, une leçon sur la manière dont se construit et se défend une cuisine qui refuse l’oubli.
Nous avons parlé — inévitablement — de Cuisine Traditionnelle, des plantes alimentaires qui soutiennent notre culture, des cours, des grands-mères, du poids symbolique des pilons et des casseroles héritées.
C’est alors que Vovó Cici a évoqué, avec une fine ironie, ce qu’elle appelle les « afrocontemporanéités » — ces inventions qui s’éloignent parfois des racines pour répondre à des modes passagères. Elle a exprimé une réelle inquiétude face à certaines distorsions qui gagnent du terrain, comme l’acarajé rose, symbole pour elle d’un détournement qui compromet l’essence de la cuisine ancestrale et le respect des traditions qui la fondent.
Marina a écouté et partagé ; les Maîtresses ont enseigné et accueilli.
Et là, il est devenu évident ce que la France, si souvent fascinée par la Bahia, cherche depuis longtemps : l’authenticité, les savoirs ancestraux et la force d’une transmission féminine et communautaire.
Cette rencontre s’inscrit dans le mouvement plus large que le Groupe d’Études sur la Cuisine Bahianaise cherche à articuler : créer des ponts entre le Brésil, l’Afrique et la France, en plaçant toujours au centre les femmes qui ont soutenu — et soutiennent encore — la saveur et l’esprit de notre terre.
Je suis reparti le cœur réchauffé, convaincu que ces échanges porteront encore de beaux fruits.
Car, lorsque les Maîtresses parlent, le temps s’étire — et lorsque le monde écoute, quelque chose de profond se transforme.
Je partagerai bientôt la suite de ce chemin.
Il y a des histoires et des savoirs qui doivent être racontés avec calme, comme un café filtré au tissu, sans se presser.
@charoth10
#elcocineroloko


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