NUTRICÍDIO E PERTENCIMENTO: QUANDO A CULINÁRIA SE TORNA ATO DE RESISTÊNCIA
COP30 e o Sabor do Futuro: o que está em jogo quando perdemos nossa comida
Em plena COP30, realizada na Amazônia, o mundo discute o futuro do planeta — mas há uma pauta silenciosa que também precisa ser trazida à mesa: a perda da identidade alimentar dos povos tradicionais.
Não existe sustentabilidade possível quando a cultura que alimenta o corpo e a memória de um território está sendo devorada pelo avanço dos produtos industrializados.
Um estudo da USP acendeu o alerta. A pesquisa da bioantropóloga Mariana Inglez revela o que ela chama de nutricídio — a morte silenciosa das culturas alimentares, provocada pela substituição dos alimentos tradicionais por produtos ultraprocessados.
O estudo analisa esse fenômeno de transição nutricional como um processo de nutricídio, termo criado pelo médico Llaila O Afrika, em 1993, para descrever a perda nutricional caracterizada pela dificuldade ou total falta de acesso a uma alimentação saudável em populações à margem da sociedade, o que influencia a saúde e continuidade de culturas alimentares tradicionais.
Entre 2019 e 2023 a pesquisadora acompanhou de perto as comunidades. Os dados coletados por Mariana mostram que, em duas décadas, o consumo de alimentos industrializados cresceu de forma significativa.
Na dieta, a participação de carboidratos provindos de alimentos comprados passou de 14% para 33%, a de proteínas de 13% para 33%, e a de gorduras de 21% para 71%. Esse avanço reflete uma substituição de dietas tradicionais por produtos industrializados ricos em energia e pobres em nutrientes.
Nas comunidades ribeirinhas do Pará, o peixe, a farinha e a tapioca vêm sendo trocados por biscoitos, refrigerantes e enlatados. E o que se perde não é só valor nutricional: perdem-se os saberes que vêm das águas, o gesto de moer a farinha, o cheiro do peixe fresco na brasa, as histórias contadas em torno da mesa.
A perda da comida tradicional é também a perda de uma forma de narrar o mundo.
Nesse mesmo tempo, gestos como o do chef Saulo Jennings, que recusou cozinhar para o Príncipe William, ganham uma força simbólica enorme. Sua atitude não foi um ato de rebeldia — foi um ato de coerência. Ao dizer não ao espetáculo da cozinha globalizada, Saulo disse sim à Amazônia, às comunidades e ao direito de que cada povo defina o que põe em seu prato.
Foi um lembrete de que não há gastronomia verde, inclusiva ou justa se ela não nasce do respeito aos territórios e às suas tradições.
A COP30, ao acontecer na Amazônia, precisa reconhecer isso: o futuro da floresta também passa pelo futuro da sua comida.
Defender a Amazônia é defender o direito de continuar comendo o que ela ensina — com afeto, memória e pertencimento.
O nutricídio que ameaça os ribeirinhos é o mesmo sistema que transforma cozinheiros em celebridades e alimentos em mercadorias. Contra essa lógica, cozinhar com identidade — seja nas margens de um rio, numa aldeia, ou numa cozinha urbana — é uma forma de resistência.
Porque a comida, quando fiel à sua origem, não é só alimento.
É território.
É história.
É um modo de existir.
Saulo, ao dizer “não” a um convite real, e as comunidades que lutam para manter o peixe e a tapioca em suas mesas, estão, de formas diferentes, dizendo a mesma coisa:
a culinária é um ato político — e o sabor do futuro depende da coragem de preservar o passado.
A tese Transição nutricional em comunidades ribeirinhas da Amazônia brasileira: “escolhas” entre alimentos tradicionais e industrializados na região de Caxiuanã, Pará, Brasil, foi defendida em 2024, sob a orientação do professor Rui Sérgio Sereni Murrieta, no Programa de Pós-Graduação em Ciências (Genética e Biologia Evolutiva) do IB.
https://ojoioeotrigo.com.br/2021/10/peixe-farinha-e-miojo/
@charoth10
#elcocineroloko
Pesquisadora viajou até a região para conhecer e conversar com a população sobre a realidade vivida por ela – Fotomontagem com imagens da pesquisadora
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