🌾 NO BRASIL COLONIAL, COMER FORA NÃO ERA LAZER, ERA NECESSIDADE.
📷 Cena de rua no Brasil colonial, Johann Moritz Rugendas (1802–1858), litografia, ca. 1835.
Sem cardápio, só o cheiro: de carne fritando na gordura, de feijão borbulhando, de café passado em chaleira de ferro.Os tropeiros precisavam de abrigo, os viajantes de sustento. Assim surgiram as casas de pasto: meio taberna, meio estalagem, meio sala de conversa.
O nome não vem da grama do gado, mas do verbo pastar: alimentar.
🍲 Enquanto a França inventava o restaurante moderno, com menu e etiqueta, o Brasil aprendia outro tipo de comer fora: coletivo, barulhento, improvisado e generoso.
Sentava-se com estranhos. Dividia-se o feijão, o arroz, a farinha.
Essas casas foram o berço da comida brasileira.
Muito antes de o país se pensar na mesa, ele já se encontrava nela.
Com o tempo, viraram botequins, pensões, restaurantes.
Mas ficaram na língua, e na alma.
Ainda há letreiros no interior que dizem “Casa de Pasto”.
📖 Para quem quiser se aprofundar na história, vale ler a dissertação:
“Das casas de pasto aos restaurantes: Os sabores da velha Curitiba (1890-1940)”, de Deborah Agulham Carvalho, um mergulho sensível nas origens dos nossos primeiros lugares de comer fora.
📚 Sobre a dissertação “Das casas de pasto aos restaurantes: os sabores da velha Curitiba (1890–1940)”
A autora e o trabalho
A dissertação foi defendida por Deborah Agulham Carvalho na Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2005.
Trata-se de um estudo histórico sobre a transformação das casas de pasto em restaurantes na cidade de Curitiba (PR), cobrindo aproximadamente o período de 1890 a 1940.
O trabalho está disponível no repositório institucional da UFPR.
Definição e terminologia
Na dissertação, “casa de pasto” é entendida como um estabelecimento comercial especializado em preparar e servir refeições.
Ao longo do tempo, esses estabelecimentos vão se sobrepondo ou transicionando para “restaurante” nos registros oficiais (alvarás, livros de impostos, registros de indústrias e profissões).
Há ambiguidade nos registros: muitos alvarás de comércio da época classificavam os lugares ora como “casa de pasto”, ora “restaurante”, ou ainda mistos (por exemplo, “restaurante/pensão”, “casa de pasto / botequim”).
Geografia e expansão
Carvalho identifica licenças para casas de pasto em diversos municípios paranaenses entre final do século XIX e início do século XX.
Em Curitiba, um dos primeiros registros datados é de meados da década de 1850, quando uma casa de pasto foi autorizada na então Rua do Fogo (atual Rua São Francisco).
Serviço, gênero e higienização
Um artigo derivado da dissertação (“‘Cozinha especial e comida a qualquer hora’: dos serviços de proprietários e cozinheiros nas casas de pasto, restaurantes e afins”) explora a presença de cozinheiros, cozinheiras, criados, proprietários etc., e como o gênero influenciava as funções nesses espaços.
Também são relatadas preocupações com higiene: no início do século XX, a Diretoria de Higiene Municipal de Curitiba inspecionava casas de pasto, restaurantes e cafés. Há menção de situações preocupantes: louças sujas, falta de limpeza, até insetos em sopas.
Exemplos de estabelecimentos
O trabalho menciona a Pensão Ferreira, fundada por Claro e Lucília, como um local de passagem para viajantes, que também funcionava como restaurante.
Outro exemplo citado é o Restaurante União, um estabelecimento mais sofisticado, que aceitava pensionistas e tinha uma adega bem abastecida.
🌍 Contexto mais amplo das casas de pasto no Brasil
Além do estudo de Carvalho (focado em Curitiba), o fenômeno das casas de pasto aparece em outras regiões e é parte da proto-história do turismo e do comer fora no Brasil:
No Rio Grande do Sul, por exemplo, um artigo de Flávia Carvalho Machado analisa como as casas de pasto serviam viajantes (tropeiros), oferecendo não só refeições mas hospedagem, bebida, e até funções de armazenagem.
A origem das casas de pasto também pode ser rastreada até Portugal, onde eram estabelecimentos de refeições simples, e foram adaptadas no contexto brasileiro para responder às necessidades locais (viajantes, tropeiros, população urbana).
🧭 Reflexões simbólicas e culturais
Sua descrição (“meio taberna, meio estalagem, meio sala de conversa”) ressoa muito bem com o que as fontes históricas apontam:
As casas de pasto eram, de fato, lugares muito coletivos — não espaços elegantes, mas acessíveis, com comida “de verdade”, para quem precisava se alimentar ao longo do dia.
Não eram apenas para comer: eram pontos de encontro social, onde se cruzavam viajantes, tropeiros, gente da cidade, pessoas que não tinham casa para uma refeição tranquila.
Esses espaços ajudaram a moldar a cultura de comer fora no Brasil — antes de existirem restaurantes sofisticados (ou “modernos”), já havia quemservisse comida às pessoas de forma mais popular, simples e funcional.
📷 Cena de rua no Brasil colonial,
Johann Moritz Rugendas (1802–1858), litografia, ca. 1835.
📚 Link da dissertação citada
“Das casas de pasto aos restaurantes: Os sabores da velha Curitiba (1890-1940)” – Deborah Agulham Carvalho (UFPR)
🔗 https://acervodigital.ufpr.br/xmlui/handle/1884/81177

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