LYDIA CABRERA E PIERRE VERGER: OS DEUSES TAMBÉM SE ESCREVEM
O encontro aconteceu no sofisticado Hotel Ritz parisiense, mas a atmosfera de luxo formal parecia distante da conexão que desejavam construir. Foi num bistrô simples, entre xícaras de café, que a magia aconteceu.
Era 1954, e as conversas fluíam sobre os deuses iorubás, a África que pulsava com força na Bahia ou no bairro cubano de Marianao, e o fascínio mútuo pelas suas descobertas.
Ele, Pierre Verger, era um viajante incansável, etnógrafo e fotógrafo por vocação. Tão profundo era seu envolvimento que foi iniciado como babalaô primeiro no Brasil e depois na Nigéria. Apesar de francês, seu coração havia encontrado um lar em San Salvador da Bahia, cativado pelo sincretismo mágico que suas lentes capturavam com rara sensibilidade. Ela, Lydia Cabrera, cubana, acabara de publicar El Monte, obra que se tornaria a pedra fundamental para os praticantes da Regla de Ocha. Para Verger, porém, Lydia era mais que uma estudiosa; ele a via como a própria Yemayá Ataramagba, “aquela que adentra a floresta virgem, os lugares solitários” em busca do saber ancestral.
Anos mais tarde, foi a poeta Lilliam Moro, com seu olhar apurado para conexões, quem me apresentou às Cartas de Yemayá a Changó, publicadas digitalmente em 2011. O outro lado dessa troca epistolar – as cartas de Verger para Lydia – está guardado na Cuban Heritage Collection da Universidade de Miami.
Esses escritos respiram uma camaradagem nascida de uma dedicação comum: entender a resiliência da religiosidade africana nos solos onde foi transplantada à força. Em 1957, essa amizade transcendeu o papel. Verger visitou Lydia em Cuba, e juntos embarcaram numa jornada até o Central España, propriedade da família de sua amiga Josefina Tarafa. "Esta província de Matanzas é uma filial da África", havia escrito Lydia, seduzindo-o a fazer a viagem.
A Tecedora de Pontes: Solange Bernabó
A história desse legado foi costurada por mãos igualmente especiais. Solange Bernabó, que também compartilhou uma proximidade com Verger, foi a primeira a traduzir os livros de Lydia Cabrera sobre os orixás Yemanjá e Oxum. Foi um trabalho seminal, uma ponte lançada para que a voz de Lydia ecoasse além das fronteiras do espanhol.
Para além dessa contribuição, Solange era filha de Carybé, o grande artista e amigo de Verger. Após o falecimento do pai, ela assumiu com destreza a direção da Fundação Pierre Verger, tornando-se uma guardiã zelosa do acervo do fotógrafo. Sua atuação, no entanto, não se limitou à gestão. Com formação em botânica, emprestou seu rigor científico para catalogar e fichar as plantas tradicionais no livro Ewe de Verger, um trabalho meticuloso que hoje integra acervos no Brasil e na França.
Solange Bernabó foi, portanto, uma figura multidimensional na preservação deste património. Ela não apenas traduziu textos fundamentais sobre os orixás, ajudando a popularizar os estudos de Verger no Brasil, mas também aplicou seu conhecimento para organizar e dar sentido a arquivos culturais complexos. Foi ela quem teceu, com fios de linguagem, ciência e curadoria, as conexões que mantêm viva a rica tapeçaria das tradições afro-brasileiras que tanto cativaram Cabrera e Verger.
A Fundação, criada pelo próprio Verger em 1988 em sua casa na Ladeira da Vila América, em Salvador, foi inicialmente presidida por Carybé. Com a partida de seu pai, coube a Solange Bernabó a direção, até 2001, guiando a instituição com a mesma paixão e respeito que sempre caracterizaram sua relação com esse universo.
Correspondencia entre Lydia Cabrera y Pierre Verger : cartas de Yemayá a Changó
https://www.torrossa.com/es/resources/an/5536300?utm_source=chatgpt.com
Pierre Verger letter to Lydia Cabrera, September 5, 1964
https://digitalcollections.library.miami.edu/digital/collection/chc0339/id/2131/
@charoth10
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