EXPANSÃO DO SISTEMA DE TESOUROS NACIONAIS VIVOS REFORÇA DEBATE SOBRE PROTEÇÃO DA CULTURA ALIMENTAR — E INSPIRA CAMINHOS PARA O BRASIL
O anúncio da expansão do sistema de Tesouros Nacionais Vivos no Japão reacende um debate que extrapola fronteiras: como preservar saberes que existem apenas quando praticados?
Ao incluir mestres da culinária washoku, produtores artesanais de saquê e outros guardiões de tradições cotidianas, o país coloca a cultura alimentar no centro de suas políticas públicas. Essa decisão, além de responder a desafios demográficos internos, oferece uma provocação global — especialmente para países como o Brasil, cuja riqueza culinária convive com riscos de apagamento e falta de reconhecimento formal. Enquanto o Japão avança na proteção intergeracional de seus conhecimentos, o Brasil ainda luta para estruturar mecanismos que garantam a continuidade dos saberes tradicionais.
O que muda no Japão — e por que isso importa
A ampliação do sistema de Tesouros Nacionais Vivos no Japão, prevista para o próximo ano fiscal, reacende uma discussão global sobre a preservação da cultura alimentar e os caminhos para garantir sua transmissão.
Ao incluir chefs tradicionais, produtores artesanais de saquê, mestres do ikebana, da caligrafia e outras práticas de vida cotidiana entre os potenciais reconhecidos, o Japão coloca a cultura doméstica e comunitária no centro de sua política cultural — e oferece uma referência decisiva para países como o Brasil.
Criado em 1954, o sistema era focado principalmente em artes cênicas e técnicas tradicionais. Com a nova categoria — cultura ligada à vida cotidiana — atividades como a culinária washoku passam a ter o mesmo peso simbólico e patrimonial das grandes artes.
O desafio demográfico e cultural
A mudança surge em um contexto crítico:
queda da taxa de natalidade
envelhecimento acelerado
diminuição de aprendizes nas artes tradicionais
fechamento de restaurantes tradicionais (ryotei)
escassez de mestres produtores de saquê (toji)
risco de desaparecimento de receitas regionais
Ou seja: o Japão reconhece que a cultura alimentar precisa de políticas ativas para sobreviver.
O que o Brasil tem a ver com isso
O Brasil possui diversidade cultural e culinária comparável — indígena, quilombola, ribeirinha, afrodescendente, amazônica, sertaneja, caiçara — mas a proteção ainda é fragmentada e insuficiente.
O Iphan registra bens imateriais relevantes (como o ofício das baianas de acarajé, o modo de fazer queijo mineiro, jongo, frevo, acarajé), mas o país não conta com um sistema contínuo e intergeracional de reconhecimento como o japonês.
Pontos críticos no Brasil
a transmissão intergeracional é frágil
mestres envelhecem sem sucessores
comunidades perdem território
produções tradicionais enfrentam pressões do mercado
a indústria e os ultraprocessados ameaçam práticas locais
precarização do trabalho afeta guardiões dos saberes culinários
O que o Brasil pode aprender com o modelo japonês
A expansão japonesa sinaliza caminhos fundamentais para fortalecer políticas de salvaguarda no Brasil:
1. Reconhecimento formal de mestres e mestras da cultura alimentar
Um sistema nacional de reconhecimento individual, ampliado e contínuo, que contemple mestres de:
culinária quilombola
tradições indígenas
culinária de terreiro
roças familiares
comunidades pesqueiras
produtores artesanais
2. Políticas intergeracionais de formação
Institucionalizar:
oficinas
intercâmbios comunitários
escolas-laboratório
programas de transmissão de saberes
formação técnica baseada em práticas ancestrais
3. Financiamento e salvaguarda reais
É preciso garantir:
bolsas e remuneração digna
apoio a cozinhas comunitárias e espaços tradicionais
incentivo às produções locais (farinhas, temperos, fermentados, utensílios)
suporte técnico e jurídico para comunidades
4. Legislação específica para cultura alimentar
Assim como o Japão entende a cultura alimentar como parte da vida cotidiana, o Brasil pode avançar em leis que contemplem:
segurança alimentar baseada em saberes tradicionais
regulação diferenciada para produções artesanais
valorização da sociobiodiversidade
proteção de territórios ancestrais
A relação com os desafios atuais
A medida japonesa responde à ameaça de desaparecimento de práticas vivas. No Brasil, os desafios são igualmente urgentes:
luta por direitos territoriais em comunidades quilombolas e indígenas
pressão do agronegócio sobre sistemas agrícolas tradicionais
esvaziamento do tempo comunitário pela precarização do trabalho
mercantilização digital dos saberes culinários
rompimento dos laços de transmissão familiar
Ao reconhecer a cultura cotidiana como núcleo da política patrimonial, o Japão afirma: cultura alimentar é bem público — e, portanto, exige políticas permanentes.
A ampliação do sistema japonês não é apenas cultural: é estratégica. Preserva conhecimento vivo — aquele que não pode ser arquivado, apenas praticado.
Para o Brasil, a expansão do modelo funciona como alerta e inspiração.
Proteger saberes alimentares exige:
reconhecimento
políticas continuadas
legislação
financiamento estruturado
articulação entre Estado, comunidades e sociedade
Quando uma cultura alimentar desaparece, perde-se mais que uma receita: perde-se território, memória e modos de existir.
#Tesouros Nacionais Vivos #patrimônio imaterial Japão #cultura alimentar #culinária tradicional #políticas culturais Brasil #salvaguarda de saberes #culinária quilombola #diversidade alimentar brasileira #transmissão intergeracional #preservação da cultura
https://japannews.yomiuri.co.jp/editorial/yomiuri-editorial/20251110-291830/
A ampliação dos Tesouros Nacionais Vivos no Japão reacende o debate sobre proteção da cultura alimentar e aponta caminhos para políticas públicas no Brasil.
Comments
Post a Comment