EM UBATUBA, MERENDEIRAS SÃO GUARDIÃS DA CULTURA E DA EDUCAÇÃO NO PRATO DAS CRIANÇAS

UBATUBA – Nas panelas das cozinhas da rede municipal de ensino de Ubatuba, vai muito mais que alimentos. Vai história, identidade e lições que ultrapassam os muros das escolas. Merendeiras como Ana Cláudia da Matta e Carla Soares Gaspar, da EM Quilombola Benedita Crispim dos Santos, na Caçandoca, encarnam uma transformação silenciosa, mas profunda: a de agentes educativas que tecem, no dia a dia, a relação das crianças com sua herança cultural e com o território.

A alimentação quilombola em Ubatuba é baseada na agrofloresta e em ingredientes cultivados na comunidade, como mandioca, milho e frutas da Mata Atlântica, além de peixes e frutos do mar. É possível vivenciar essa cultura através de visitas ao Quilombo da Fazenda e ao Quilombo do Sertão de Itamambuca, onde há cozinhas comunitárias, oficinas de culinária e a possibilidade de degustar pratos tradicionais, como beiju, tapioca e refeições preparadas com os alimentos da produção local. 

Essa mudança de perspectiva – que enxerga a alimentação como ato educativo e cultural – é um dos pilares do trabalho realizado pelo Setor de Alimentação Escolar do município, alinhado ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

"A cozinha é também um espaço de educação, afeto e pertencimento", afirma a nutricionista responsável, Liandra F. Monteiro de Oliveira. "Buscamos que cada refeição servida fosse também uma lição sobre respeito à terra, às tradições e às pessoas que produzem e preparam os alimentos."

Ubatuba Quilombola 

Com mais de mil moradores quilombolas, Ubatuba (SP) tem quatro comunidades e é a cidade com maior número de mocambos entre os municípios do Vale do Paraíba e Litoral Norte.

Existem, ao todo, 1.371 quilombolas atualmente na cidade, o que representa 1,5% da população total de Ubatuba.

Os dados divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira (27) são inéditos, já que é a primeira vez que o Censo incluiu em seus questionários perguntas para identificar pessoas que se autodenominam quilombolas. 

O Saber que Vem do Fogão

Longe de serem apenas executoras de cardápios, as merendeiras são reconhecidas como peças-chave na formação do paladar e dos hábitos alimentares dos estudantes. Elas são as guardiãs dos "sabores da memória", incorporando receitas e técnicas tradicionais da comunidade no ambiente escolar. Essa valorização direta do saber popular fortalece a autoestima das comunidades e transforma o horário da refeição em um momento rico de conexão com as raízes.

As ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) desenvolvidas nas escolas foram além da nutrição, dialogando com meio ambiente, equidade e cidadania. A adesão de Ubatuba à Jornada de Educação Alimentar e Nutricional, iniciativa do FNDE, consolidou o município como referência regional em uma abordagem onde o alimento é ferramenta pedagógica.

Compromisso com a Raiz e com o Futuro

O projeto educacional por trás da alimentação em Ubatuba busca um equilíbrio delicado e essencial: oferecer comida nutritiva e segura, comprada prioritariamente da agricultura familiar local, sem abrir mão da cultura alimentar que define a identidade do município.

"Seguiremos com o compromisso de oferecer uma alimentação escolar de qualidade, sempre com o cuidado de buscar nos nossos agricultores familiares locais uma parceria ainda mais próxima e sem nos esquecermos da cultura alimentar que nos torna referência", finaliza José Carlos Firme, secretário adjunto da Secretaria Municipal de Educação.

A experiência ubatubense evidencia um consenso: quando a merendeira vira educadora e o quilombo vira sala de aula, a escola cumpre, no prato de cada aluno, seu papel de formar cidadãos mais conectados com sua história e seu lugar no mundo.

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