COZINHAS AFRICANAS EM COMUM: DE ÁFRICA ÀS DIÁSPORAS-CULINÁRIA AFRICANA EM DESTAQUE NO MUNCAB
Em um encontro que celebrou a culinária africana como expressão de cultura e memória, a curadora Jamile Coelho definiu o tom do evento ao fazer a abertura no Muncab – Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira. Ela falou sobre a trajetória da instituição, posicionando-a como o palco ideal para esse diálogo que une tradição e contemporaneidade, sobre a Bahia e as Africanidades.
O museu, localizado em Salvador, confirmou-se mais uma vez como um território vivo das artes e culturas negras, com a mediação de Jamile destacando a potência da comida como fio condutor da história de um povo.
A mediação ficou a cargo da jornalista e intérprete Lourène Petit, que organizou o encontro em três blocos temáticos, promovendo uma conversa fluida e rica em perspectivas.
Confira as fotos no link abaixo
https://drive.google.com/drive/folders/1f7cCSW_pbKteM2LMet9lG8JJDr3EiU-r
Ingredientes e Conexões na Diáspora
Com a participação da chef Georgiana Viou, do chef Yass e minha presença, este primeiro bloco tratou da circulação de ingredientes e saberes culinários no contexto diaspórico.
Pioneira, Georgiana Viou foi a primeira mulher negra e africana a ser agraciada com uma estrela no Guia Michelin. Em sua fala, compartilhou a trajetória à frente do seu restaurante, o Rouge, em Marselha, e detalhou novos projetos que buscam elevar a visibilidade dos produtos africanos através de uma cozinha contemporânea.
O chef Yass, por sua vez, relatou sua formação autodidata e seu trabalho à frente do restaurante do La Friche, onde coordena cerca de 300 refeições diárias. Além da cozinha, ele também conduz eventos e iniciativas que fortalecem o papel da culinária dentro desse importante complexo cultural.
Lembrei que ainda há muito a ser feito para a internacionalização da culinária baiana. Mais do que valorizar insumos provenientes das nossas cadeias produtivas tradicionais — como o camarão seco, o dendê e a farinha —, é fundamental reconhecer a Culinária Baiana como expressão viva da nossa cultura, profundamente conectada à história e à força do nosso povo, que criou e fortaleceu laços na diáspora africana.
Ancestralidade e Memória
O segundo bloco contou com as chefs Solange Borges e Ana Célia, que emocionaram o público com relatos sobre suas origens, os primeiros passos na cozinha e a presença constante das memórias familiares em seus pratos.
Também esteve presente Marlene da Costa, que desenvolve um belo trabalho de escuta e registro das histórias de Vovó Cici, uma verdadeira guardiã dos saberes culinários ancestrais.
Inovação e Culinária Contemporânea
Encerrando o ciclo de conversas, o chef Hugge Mbenda, natural do Congo, apresentou sua visão sobre o uso de folhas e plantas de origem africana na culinária contemporânea.
Sua cozinha alia sofisticação técnica e respeito às raízes, traduzindo tradições africanas em uma estética moderna e elegante.
Quando o questionei sobre os limites entre inovação e apropriação cultural, Hugge respondeu com lucidez e sensibilidade — demonstrando pleno domínio sobre o valor simbólico e histórico de sua culinária para o seu povo.
Na sequência, a mestre chocolatier Naomi Martino, da Martinica, encantou o público com sua fala sobre o cacau e sua relação com a terra, o processo Tree to Bar.
Declarou-se fascinada pela Bahia e manifestou o desejo de desenvolver um projeto aqui.
Embora eu não tenha degustado seus chocolates, pude perceber, durante nossa convivência, a consistência de suas ideias e a profundidade de seu trabalho.
Naomi contou que passou quase três anos pesquisando arquivos e conversando com produtores tradicionais, numa busca por rigor conceitual e respeito às origens.
Aproveitei para comentar sobre o uso de utensílios ancestrais como o pilão e a pedra de oló, símbolos da comunicação intergeracional e da persistência dos saberes manuais em nossas cozinhas.
O encontro foi encerrado com as palavras de Axel Mbecha, que agradeceu a presença de todos e destacou o “Les Cuisines Africaines” como uma plataforma essencial para a valorização e difusão das culinárias africanas no mundo.
CUISINES AFRICAINES EN COMMUN : DE L’AFRIQUE AUX DIASPORAS-CUISINE AFRICAINE À L’HONNEUR AU MUNCAB
Lors d’une rencontre célébrant la cuisine africaine comme expression de culture et de mémoire, la curatrice Jamile Coelho a donné le ton de l’événement en ouvrant la séance au MUNCAB – Musée National de la Culture Afro-Brésilienne.
Elle a évoqué le parcours de l’institution, la présentant comme la scène idéale pour ce dialogue qui unit tradition et contemporanéité, Sur la Bahia et les Africanités.
Le musée, situé à Salvador, s’est une fois de plus affirmé comme un territoire vivant des arts et des cultures noires, avec une médiation de Jamile soulignant la puissance de la cuisine comme fil conducteur de l’histoire d’un peuple.
L’événement a été animé par la journaliste et interprète Lourène Petit, qui a structuré la discussion en trois volets thématiques, favorisant un échange fluide et riche en perspectives.
Ingrédients et connexions dans la diaspora
Avec la participation de la cheffe Georgiana Viou, du chef Yass et de moi-même, ce premier volet a exploré la circulation des ingrédients et des savoirs culinaires dans le contexte diasporique.
Pionnière, Georgiana Viou a été la première femme noire et africaine à être récompensée d'une étoile au Guide Michelin. Lors de son intervention, elle a partagé son parcours à la tête de son restaurant, le Rouge, à Marseille, et a détaillé de nouveaux projets qui visent à rehausser la visibilité des produits africains à travers une cuisine contemporaine.
Le chef Yass a quant à lui évoqué sa formation autodidacte et son rôle à la tête du restaurant de La Friche, où il supervise près de 300 repas par jour. Il est également responsable de plusieurs événements culinaires au sein de ce vaste complexe culturel, où la cuisine occupe une place privilégiée.
Je me suis rappelé qu’il reste encore beaucoup à faire pour l’internationalisation de la cuisine bahianaise.
Au-delà de la valorisation des ingrédients issus de nos chaînes productives traditionnelles — comme la crevette séchée, l’huile de dendê et la farine —, il est essentiel de reconnaître la cuisine bahianaise comme une expression vivante de notre culture, profondément liée à l’histoire et à la force de notre peuple, qui a créé et consolidé des liens au sein de la diaspora africaine.
Ancestralité et mémoire
Le deuxième volet a réuni les cheffes Solange Borges et Ana Célia, qui ont ému le public en partageant leurs récits personnels, leurs débuts en cuisine et la présence constante des souvenirs familiaux dans leurs plats.
La participation de Marlene da Costa a également été remarquée ; elle mène un travail remarquable d’écoute et de transmission auprès de Vovó Cici, véritable gardienne des savoirs culinaires ancestraux.
Innovation et cuisine contemporaine
Pour clore le cycle de conversations, le chef Hugge Mbenda, originaire du Congo, a présenté sa vision de l’utilisation des feuilles et des plantes africaines dans la cuisine contemporaine.
Sa démarche allie sophistication technique et respect des racines, traduisant les traditions africaines dans une esthétique moderne et élégante.
Lorsque je lui ai demandé où se situait la limite entre innovation et appropriation culturelle, Hugge a répondu avec clarté et sensibilité — démontrant une parfaite conscience de la portée symbolique et historique de sa cuisine pour son peuple.
La maître-chocolatière Naomi Martino, originaire de la Martinique, a ensuite captivé l’audience en évoquant sa relation intime avec le cacao et la terre.
Elle s’est dite fascinée par la Bahia et a exprimé son souhait d’y développer un projet.
Bien que je n’aie pas eu l’occasion de goûter ses chocolats, j’ai perçu, au fil de nos échanges, la profondeur de sa réflexion et la rigueur de sa démarche. Naomi a expliqué avoir passé près de trois ans à étudier des archives et à dialoguer avec des producteurs traditionnels, dans une recherche d’exactitude conceptuelle et de fidélité à ses origines.
J’ai profité de l’occasion pour évoquer l’usage du pilon et de la pierre d’oló, véritables symboles de la communication intergénérationnelle et de la persistance des savoirs manuels dans nos cuisines.
La rencontre s’est achevée par les mots de Axel Mbecha, qui a remercié l’ensemble des participants et souligné le rôle essentiel de la plateforme “Les Cuisines Africaines” dans la valorisation et la diffusion des cuisines africaines à travers le monde.
#elcocineroloko
@charoth10
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