🍽️ “COMIDA DE RICO”: O SINTOMA DE UM PAÍS QUE TEM FOME
O autor parte do episódio envolvendo o ator Chay Suede e um prato da chef Helena Rizzo — que chegou a virar questão de vestibular — para sugerir que o incômodo nasce da “estética das classes altas”, que privilegiaria a forma em detrimento da função. A leitura de Tonon, ainda que bem-intencionada, é superficial.
Ele identifica o sintoma — o ódio, a ironia, o deboche —, mas se esquiva de examinar a ferida exposta: a desigualdade alimentar e simbólica que estrutura o Brasil. Discutir “comida de rico” sem mencionar a fome é ignorar o cerne da questão. O prato luxuoso que viraliza não gera raiva apenas por sua apresentação estética ou porção diminuta; ele ofende porque personifica um país onde milhões passam fome enquanto uma minoria transforma o ato de comer em performance.
Tonon reduz o conflito a uma oposição binária — luxo versus sustento, forma versus função —, como se o problema residisse na beleza ou no refinamento. No entanto, a estética é, em si, política. O que fere não é o requinte em si, mas o rompimento com o território, o distanciamento do alimento das mãos e dos rostos que o cultivam e o preparam. Quando a comida vira espetáculo, perde seu elo com a terra, com o tempo e com as pessoas que a produzem.
O artigo também peca por omissão. Fala da “comida de rico”, mas silencia sobre a “comida do povo”: as cozinheiras que sustentam escolas, os quintais que alimentam famílias, os quilombos e terreiros onde o saber ancestral do fogo e da folha resiste.
Essas vozes estão ausentes, e é nelas que reside a verdadeira resposta ao mal-estar coletivo. O que as redes expressam como ódio talvez seja, no fundo, uma saudade — saudade de uma comida que acolhe, que pertence, que não exclui.
Há ainda uma contradição que o próprio circuito gastronômico evita encarar: a “comida de rico” não é um fenômeno isolado, mas um produto da indústria cultural da gastronomia — reality shows, colunas, rankings e marketing que transformam o alimento em fetiche e o ato de cozinhar em espetáculo. Criticar o prato sem questionar o sistema que o exalta é perpetuar a lógica que converte a mesa em vitrine e o cozinheiro em marca.
Mais do que se perguntar por que a “comida de rico” gera ódio, o país precisaria se questionar:
Por que ainda naturalizamos um sistema que produz luxo para poucos e fome para muitos — e chamamos isso de gastronomia?
Uma Leitura Possível: O Olhar de Alcoforado
Michel Alcoforado provavelmente enxergaria a “comida de rico” não como um mero prato, mas como um ritual de pertencimento. Em um país profundamente desigual e historicamente marcado por distinções simbólicas, comer é também uma forma de declarar “quem eu sou” e, sobretudo, “quem eu não sou”.
Sob o prisma do consumo aspiracional, ele argumentaria: as elites consomem “comida de autor” para se diferenciar, enquanto as classes médias e populares reagem com ironia ao reconhecer, nesse gesto, a reafirmação das distâncias sociais que as atravessam cotidianamente. É o mesmo mecanismo da moda, dos carros ou das viagens — a comida apenas se tornou mais visível devido à estetização da vida nas redes sociais.
No entanto, há um ponto de convergência: Alcoforado também percebe que a elite brasileira tem dificuldade de vivenciar o prazer e o luxo sem precisar exibir distinção. Ele diria que o problema não é o prato refinado, mas a incapacidade de produzir um prazer compartilhado, de experienciar o luxo como algo coletivo — e não como ferramenta de segregação.
Minha provocação a Tonon seria direta:
“A comida de rico não gera ódio porque é bonita, mas porque encena, de forma espetacular, o abismo entre o país que come e o país que passa fome.”
“No Brasil, até o ato de se alimentar é atravessado pelo desejo de performar um status. O problema não é o garfo de prata, mas a necessidade de ser visto segurando-o.”
Para Além do Prato
Enquanto o debate se limitar à aparência do prato, permaneceremos reféns de uma crítica estética que, no fim, serve à mesma elite que pretende analisar. O verdadeiro desafio é resgatar para a comida seu poder de criar vínculos, de expressar um território e um afeto — destroná-la do pedestal da distinção e recolocá-la na roda do pertencimento. Porque cozinhar, no Brasil, sempre foi mais do que técnica: é memória, resistência e, acima de tudo, um gesto de comunidade.
@charoth10
#elcocineroloko

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