CACHOEIRA CELEBRA UM PATRIMÔNIO COMESTÍVEL: DALVA DAMIANA, A MATRIARCA QUE TRANSFORMOU TABULEIRO EM CORTEJO
O Terno do Acarajé é uma das tradicionais apresentações que acontecem durante a Festa de Nossa Senhora D'Ajuda, em Cachoeira, celebrada em novembro, é uma das mais antigas e aguardadas de Cachoeira, registrada como Patrimônio Imaterial da Bahia.
Suas origens remontam ao século XIX, iniciando como um agradecimento pelos senhores de engenho pela boa colheita de cana-de-açúcar. A celebração mescla elementos religiosos (como missas e procissões) com manifestações culturais profanas (os diversos ternos e embalos).
Do Tabuleiro à Liberdade
O cheiro do dendê aquecendo anuncia mais que um prato: anuncia história. Em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, o acarajé é patrimônio comestível que uma vez por ano se veste de gala. Nas ruas de paralelepípedos, o Terno do Acarajé transforma o simples bolinho de feijão fradinho em testemunho vivo de resistência - um cortejo solene que carrega séculos de memória africana.
Nas mãos das baianas, o tabuleiro nunca foi apenas suporte para comida. Durante a escravidão e no pós-abolição, tornou-se instrumento de alforria - ferramenta de sobrevivência que permitiu a gerações de mulheres negras conquistarem sua autonomia. Cada acarajé frito representava não apenas sustento, mas um passo em direção à liberdade. O ofício, hoje registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN, conta essa história de resistência econômica e cultural que ainda ecoa nas ruas de Cachoeira.
Museu Vivo de Saberes
Criado em 1973 por Dona Dalva Damiana de Freitas, o Terno do Acarajé materializa essa trajetória secular. Mais que um desfile, é um museu a céu aberto onde cada baiana com seu traje imponente e tabuleiro cuidadosamente arrumado representa um capítulo dessa narrativa. O cortejo celebra não apenas o sabor, mas todo o saber-fazer: o tempero do feijão, a cor do dendê, a arte de vestir e a maneira tradicional de dispor as iguarias.
A Matriarca da Cultura
Dona Dalva, nascida em 1927, é a força motriz por trás dessa manifestação. Ex-operária de charutos, mestra do Samba de Roda (reconhecido pela UNESCO) e membro da Irmandade da Boa Morte, ela transformou sua vida em dedicação à cultura do Recôncavo. Através da Casa do Samba na Praça da Aclamação, mantém viva não apenas o Terno do Acarajé, mas diversas manifestações tradicionais.
Do Sagrado ao Profano
O acarajé carrega em seu nome iorubá - "akará" (bola de fogo) e "jé" (comer) - sua origem sagrada como oferenda aos orixás Iansã e Xangô no Candomblé.
O Terno mantém viva essa dimensão espiritual, ligando-se às festividades de Santa Bárbara e Santa Cecília, demonstrando o sincretismo que caracteriza a cultura baiana.
Em Cachoeira, a cultura não se observa apenas - se sente no cheiro do dendê, se ouve no canto do samba de roda, se prova no primeiro mordido de um acarajé. É herança viva que continua a ser escrita, tabuleiro por tabuleiro, geração após geração.
@charoth10
#elcocineroloko

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