A LINGUAGEM SECRETA DOS SABORES: A CULINÁRIA COMO NARRATIVA VIVA DA CULTURA
SABORES QUE CONTAM HISTÓRIAS: A CULINÁRIA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE
Em um mundo de refeições rápidas e sabores padronizados, é fácil esquecer que cada prato carrega em seus ingredientes e técnicas séculos de história, identidade e memória.
A culinária, muito além de simples sustento, revela-se uma linguagem silenciosa que narra, através dos sentidos, a trajetória de povos e comunidades.
"A alimentação é uma das práticas culturais mais fundamentais do ser humano. Ela não se restringe ao biológico; é através dela que construímos relações, transmitimos tradições e expressamos nossa visão de mundo", explica o historiador.
No segundo episódio da série “Cultura Movimenta”, uma produção da TV UFMG em parceria com o Comitê de Cultura de Minas Gerais, o professor José Newton Meneses, do Departamento de História da UFMG, explora a fundo a importância da alimentação e das práticas alimentares como expressões culturais.
No encontro, o historiador discute como os sabores, ingredientes e modos de preparo vão muito além do ato de comer — são narrativas que contam histórias, constroem identidades e revelam a complexidade social de um povo.
Confira o vídeo completo e mergulhe nessa reflexão saborosa sobre a cultura que habita nossa mesa: https://youtu.be/2b3uEoUXm5Q?si=zbLRCdp4bsiaGxH9
O Saber que Vem do Fogão
"A alimentação é uma das práticas culturais mais fundamentais do ser humano", afirma o professor José Newton Meneses, do Departamento de História da UFMG. "Ela não se restringe ao biológico; é através dela que construímos relações, transmitimos tradições e expressamos nossa visão de mundo."
Essa percepção transforma o ato de cozinhar em um ritual de transmissão cultural. O acarajé baiano não é apenas um bolinho de feijão-fradinho - é um símbolo da cultura afro-brasileira, uma oferenda ritualística que atravessou o Atlântico e se firmou como ícone de resistência e identidade. Da mesma forma, o simples hábito de uma família se reunir para o jantar, os ingredientes escolhidos para datas comemorativas, e até a maneira de temperar uma salada representam heranças invisíveis que passam de geração em geração.
Minas Gerais: Um Arquivo Vivo na Mesa
Em pesquisa intitulada "A mesa dos mineiros narra Minas", o professor Meneses demonstra como a culinária funciona como um arquivo vivo da formação cultural. Sua investigação, baseada em análise de inventários post mortem, documentos camarários e narrativas de viajantes ao longo de 300 anos, revela uma cozinha em constante diálogo.
"A comida é linguagem e nesse sentido narra uma cultura", afirma o historiador. Sua pesquisa desmonta a visão de cozinhas regionais estanques, mostrando que Minas Gerais, desde o período colonial, "é portuguesa, mas não é Portugal". A formação culinária mineira constitui-se como um mosaico cultural: na herança lusa encontra um eixo importante, mas não rígido; na raiz ameríndia, um "alicerce aberto às levezas das sazonalidades"; nas culturas africanas, um "baluarte essencial de cerne moldável".
Tradição em Movimento
O estudo revela ainda que a suposta "tradição" culinária é, na verdade, um processo dinâmico que incorpora "mais mudanças que permanências, mais valores que preceitos, mais gostos que necessidades". A cozinha mineira, marcada pelo trânsito inter-regional e pela "receptividade fácil e comedida do outro", exemplifica como as culinárias regionais estão em constante transformação.
Patrimônio a Ser Preservado
Na era da globalização e da comida ultraprocessada, tradições culinárias milenares enfrentam o risco de desaparecimento. O registro do Queijo Minas Artesanal como patrimônio cultural imaterial pelo IPHAN representa um exemplo de como um alimento pode ser reconhecido como obra viva de uma comunidade.
"Quando protegemos um queijo artesanal ou a técnica de uma doceira, não estamos apenas preservando um sabor", defende Meneses. "Estamos garantindo o direito de um povo à sua própria história e à sua autonomia alimentar."
Para Além do Paladar
Compreender a culinária como cultura exige, nas palavras do pesquisador, "confrontar contradições, juntar texturas, aventurar-se sem a prioris, com argúcia crítica e desapego a modelos dados". Cada prato tradicional - seja o pão de queijo mineiro, o acarajé baiano ou a feijoada - contém não apenas uma receita, mas a narrativa de formações culturais complexas, plurais e em constante diálogo com o mundo.
Na próxima refeição, ao saborear um prato que remete à sua história ou à de outros povos, lembre-se: você não está apenas se alimentando. Está decifrando, através do paladar, a rica e complexa linguagem que narra quem somos, de onde viemos e que valores cultivamos como sociedade. A culinária, em sua essência, é o museu sensorial e afetivo da humanidade.
http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/Dossie_Queijo_de_Minas_web.pdf
@charoth10
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