A DOCE ILUSÃO: COMO A TRADIÇÃO CULINÁRIA É USADA PARA VENDER ULTRAPROCESSADOS

DO CURRAL À LATA: QUANDO NOSSA TRADIÇÃO VIRA MARKETING

Venho insistindo neste tema crucial: a naturalização do uso de processados e como o marketing digital se utiliza da nossa culinária tradicional para esse fim.

Fui ao Instagram pesquisar sobre o assunto. Ao digitar "leite condensado", me deparei com milhões de publicações - brigadeiros cremosos, pudins dourados, beijinhos branquinhos. Uma verdadeira festa visual que prometia o sabor da infância em cada frame.

Mas então surgiu um vídeo que sintetizou toda essa contradição: a criadora @magnafreiree, em um cenário que parecia saído da roça da minha avó - um curral de abóbora, terra batida, simplicidade pura -, preparava uma receita cuja estrela era uma singela lata de leite condensado.

Aquela imagem, tão perfeita, revelava uma verdade incômoda: nossa tradição culinária está sendo habilmente sequestrada.

A ESTRATÉGIA POR TRÁS DO AFETO

O que essa cena representa vai muito além de uma receita prática. É a peça final de um quebra-cabeça montado durante décadas pela indústria de alimentos. Nosso afeto pela cozinha da vovó, nossa nostalgia pelos sabores da infância, estão sendo usados como ponte para naturalizar o ultraprocessado.

Os números impressionam:

· #brigadeiro: 7,5 milhões de publicações

· #pudim: 4,5 milhões

· #beijinho: 700 mil

São mais de 12 milhões de posts girando em torno de receitas que dependem fundamentalmente de um único ingrediente industrial.


COMO FUNCIONA A MAGIA?

A estratégia é tão simples quanto genial:

1. O ATAQUE AO CORAÇÃO (E À MEMÓRIA)

Nosso paladar foi educado desde criança a associar leite condensado com momentos de alegria- festas de aniversário, comemorações, reuniões familiares. O produto deixa de ser uma mistura de leite em pó, açúcar e estabilizantes para se tornar sinônimo de afeto.

2. O DISFARCE PERFEITO

Cenas como a do curral de abóbora são a cereja do bolo.Ao emoldurar o produto industrial em cenários rústicos e "autênticos", cria-se a ilusão de que estamos diante de algo natural, caseiro, tradicional. A mensagem é clara: "até na vida mais simples e conectada com a terra, este produto é essencial".

A CONTRADIÇÃO QUE VIVEMOS

Aqui mora o paradoxo: enquanto buscamos alimentos mais naturais, orgânicos e sustentáveis, nossas sobremesas mais amadas nascem de uma lata. Enquanto celebramos o "feito em casa", o que realmente fazemos em casa é abrir embalagens industriais.

A indústria não vende apenas um produto - vende a sensação de tradição, a praticidade do afeto, a nostalgia em lata.

E AGORA?

Não se trata de demonizar o leite condensado ou de julgar quem o utiliza. Trata-se de abrir os olhos para o jogo de marketing que nos cerca. Trata-se de questionar: quando preparamos essas receitas, estamos honrando uma tradição ou reproduzindo um script escrito por departamentos de marketing?

A verdadeira tradição culinária nasce da criatividade com o que a terra dá. A "tradição" que nos vendem nasce da dependência de um produto específico, globalizado e altamente lucrativo.

Na próxima vez que você vir uma receita em um cenário idílico, prometendo o sabor da vovó com a praticidade moderna, pause. Respire. E pergunte-se:

Quem está realmente cozinhando? A avó - ou uma multinacional?

A escolha do que colocamos em nossa mesa é, no fundo, a escolha de que tradição queremos cultivar.


#elcocineroloko

@charoth10

Comments

Popular posts from this blog

MARLI BRITO E O PULSAR BAIANO NO SÃO VICENTE

OFICINA SOTOKO EM GENEBRA: OBSERVAÇÕES ANALÍTICAS SOBRE CULTURA ALIMENTAR E DIVERSIDADE