Durante a Feira de Agroecologia da UFBA, a roda de conversa trouxe à tona um tema profundo e urgente: o currículo do curso de gastronomia, implantado em 2008, que ainda hoje dedica três semestres inteiros à culinária francesa. A fala do representante da área foi marcada pela sinceridade de quem reconhece a necessidade de mudança — não apenas curricular, mas simbólica.
Esse modelo de ensino nasceu com o intuito de formar mão de obra, e não de formar sujeitos criadores, pensantes e conectados com as realidades alimentares do seu território. Ele reflete um modo de pensar a comida a partir da lógica colonial e da hierarquia cultural, em que os saberes europeus são tomados como universais e civilizados, enquanto os saberes locais são vistos como folclóricos ou atrasados.
No entanto, como nos ensina Marilena Chauí, a cultura é a relação simbólica entre o ser humano e o mundo, construída pela linguagem, pelo trabalho e pela memória. Quando a universidade repete um currículo que ignora a força simbólica dos saberes alimentares afro-indígenas, quilombolas e camponeses, ela não apenas silencia culturas — ela interrompe a própria dinâmica cultural que a filósofa defende: aquela que não flui apenas do centro para a periferia, mas também da periferia para o centro, carregando os saberes mais preciosos e ancestrais.
A desconexão curricular, portanto, é também uma desconexão simbólica: ela revela o abismo entre o que se ensina e o que se vive nas cozinhas, nas feiras, nos quintais e nos terreiros. É como se a escola, ao privilegiar técnicas importadas, negasse as formas de conhecimento que nascem do território, das tradições e das experiências compartilhadas.
Enquanto o mundo busca reencontrar o equilíbrio entre produção e natureza, alimento e afeto, corpo e território, é urgente que as escolas também acompanhem essa transformação. A universidade pública, especialmente, deve ser o espaço onde se pensa a cultura de forma viva — onde o ato de cozinhar é reconhecido como ato de linguagem, de trabalho e de memória.
Afinal, comida é cultura, e cultura não se ensina por repetição, mas por escuta, diálogo e partilha. O desafio é reconstruir o currículo não como uma lista de técnicas, mas como uma teia de relações — entre pessoas, territórios e saberes. Só assim será possível formar cozinheiros e cozinheiras capazes de compreender que cada ingrediente é também um símbolo, cada receita uma narrativa, e cada refeição, um gesto político e ancestral.
A comida é cultura. Essa afirmação, que pode parecer simples, carrega em si uma profunda dimensão simbólica e social. Alimentar-se não é apenas satisfazer necessidades fisiológicas ou garantir a sobrevivência do corpo; é participar de um conjunto de significados, práticas e memórias que constituem a própria experiência humana. Comer é um ato de linguagem, de trabalho e de memória — três pilares que, como nos lembra Marilena Chauí, diferenciam a cultura da natureza e estruturam a relação simbólica dos seres humanos com o mundo.
Nesse sentido, a alimentação é um dos modos mais potentes de expressão cultural, pois nela se condensam as heranças de um povo, as marcas de sua história, suas crenças, afetos e valores. Cada prato, ingrediente e técnica culinária é portador de uma memória coletiva, revelando formas de viver e de pensar. Quando escolhemos o que comemos, estamos também escolhendo modos de estar no mundo, modos de nos relacionar com a terra, com os outros e conosco.
Chauí nos adverte, porém, sobre os perigos de uma “cultura de massa”, que reduz e banaliza as expressões simbólicas ao transformá-las em mercadoria e entretenimento. Esse processo se repete na alimentação quando práticas tradicionais são descontextualizadas, padronizadas e convertidas em produtos de consumo global.
Nesses casos, o gesto de cozinhar — antes um ato de partilha e de memória — é transformado em espetáculo, e o alimento perde seu enraizamento no território e na coletividade.
Por outro lado, reconhecer que comida é cultura é também reconhecer a potência criativa dos povos, sobretudo daqueles historicamente situados à margem. A filósofa enfatiza que a cultura não se move apenas do centro para a periferia, mas também da periferia para o centro, carregando consigo saberes preciosos e ancestrais.
A valorização dos ativos culturais e naturais ligados à comida representa, assim, um caminho para o desenvolvimento local e a redução das desigualdades, especialmente nos territórios rurais e tradicionais. A culinária se torna instrumento de resistência e afirmação identitária: um espaço onde o saber fazer é também saber viver.
Comer, portanto, é um ato político e simbólico. Comemos de acordo com a sociedade em que vivemos, conforme sua forma de produzir e distribuir alimentos, conforme as riquezas e desigualdades que ela cria. Comemos o que nossa cultura permite, o que nossa classe acessa, o que nossa memória reconhece. A comida traduz o modo como nos organizamos, nos diferenciamos e nos conectamos.
Ao dizer que comida é cultura, afirmamos que cada refeição é também um gesto de pertença, uma forma de narrar o mundo e de recriar laços entre as pessoas e o território. É na mesa — lugar de encontro, afeto e partilha — que a cultura se renova e resiste.
@charoth10
Programme, culture et déconnexion : ce que la nourriture révèle
Lors de la Foire d’agroécologie de l’Université Fédérale de Bahia, la table ronde a mis en lumière un sujet profond et urgent : le programme du cours de gastronomie, créé en 2008, qui consacre encore aujourd’hui trois semestres entiers à la cuisine française.
L’intervention du représentant du domaine a été marquée par la lucidité de celui qui reconnaît la nécessité d’un changement — non seulement du programme, mais aussi du sens symbolique qu’il véhicule.
Ce modèle d’enseignement est né avec l’objectif de former une main-d’œuvre, et non de former des sujets créateurs, pensants et connectés aux réalités alimentaires de leur territoire. Il reflète une manière de concevoir la nourriture à partir d’une logique coloniale, où les savoirs européens sont considérés comme universels et civilisés, tandis que les savoirs locaux sont relégués au rang de folklore ou d’arriération.
Or, comme le souligne Marilena Chauí, la culture est la relation symbolique de l’être humain avec le monde, médiée par le langage, le travail et la mémoire.
Lorsqu’une université perpétue un programme ignorant la force symbolique des savoirs culinaires afro-indiens, quilombolas ou paysans, elle ne se contente pas de taire ces cultures : elle interrompt la dynamique même de la culture, celle que la philosophe décrit comme un mouvement qui ne va pas seulement du centre vers la périphérie, mais aussi de la périphérie vers le centre, en apportant des savoirs précieux et ancestraux.
La déconnexion du programme est donc aussi une déconnexion symbolique : elle révèle l’abîme entre ce qui s’enseigne et ce qui se vit dans les cuisines, les marchés, les jardins et les terreiros. En privilégiant des techniques importées, l’école nie les formes de connaissance nées du territoire, des traditions et des expériences partagées.
Alors que le monde cherche à rétablir l’équilibre entre production et nature, nourriture et affection, corps et territoire, il devient urgent que les écoles accompagnent elles aussi cette transformation. L’université publique, surtout, devrait être le lieu où la culture se pense comme vivante — où cuisiner est reconnu comme un acte de langage, de travail et de mémoire.
Car la nourriture est culture, et la culture ne s’enseigne pas par la répétition, mais par l’écoute, le dialogue et le partage.
Le défi consiste à reconstruire le programme non pas comme une liste de techniques, mais comme une toile de relations — entre personnes, territoires et savoirs. C’est à cette condition que l’on pourra former des cuisiniers et cuisinières capables de comprendre que chaque ingrédient est aussi un symbole, chaque recette une narration, et chaque repas un geste politique et ancestral.
La nourriture est culture
La nourriture est culture. Cette affirmation, qui peut paraître simple, porte en elle une profonde dimension symbolique et sociale. Se nourrir, ce n’est pas seulement répondre à des besoins physiologiques ou assurer la survie du corps ; c’est participer à un ensemble de significations, de pratiques et de mémoires qui constituent l’expérience humaine elle-même. Manger est un acte de langage, de travail et de mémoire — trois piliers qui, comme nous le rappelle Marilena Chauí, distinguent la culture de la nature et structurent la relation symbolique de l’être humain avec le monde.
En ce sens, l’alimentation est l’une des expressions culturelles les plus puissantes, car elle condense l’héritage d’un peuple, les marques de son histoire, ses croyances, ses affects et ses valeurs. Chaque plat, chaque ingrédient, chaque technique culinaire porte une mémoire collective, révélant des manières de vivre et de penser. Lorsque nous choisissons ce que nous mangeons, nous choisissons aussi une façon d’être au monde, une manière de nous relier à la terre, aux autres et à nous-mêmes.
Chauí nous met toutefois en garde contre les dangers d’une « culture de masse », qui réduit et banalise les expressions symboliques en les transformant en marchandise et en divertissement. Ce processus se reproduit dans l’alimentation lorsque les pratiques traditionnelles sont décontextualisées, standardisées et converties en produits de consommation mondiale. Dans ces cas, le geste de cuisiner — autrefois acte de partage et de mémoire — devient spectacle, et la nourriture perd son enracinement dans le territoire et la collectivité.
Reconnaître que la nourriture est culture, c’est aussi reconnaître la puissance créatrice des peuples, surtout de ceux historiquement relégués aux marges. La philosophe souligne que la culture ne circule pas seulement du centre vers la périphérie, mais aussi de la périphérie vers le centre, en apportant avec elle des savoirs précieux et ancestraux. Cette dynamique se manifeste dans les cuisines populaires, quilombolas, indigènes, riveraines et paysannes — formes de connaissance qui affirment la vie et la diversité face à l’homogénéisation imposée par le marché.
La valorisation des ressources culturelles et naturelles liées à la nourriture représente ainsi une voie vers le développement local et la réduction des inégalités, notamment dans les territoires ruraux et traditionnels. La cuisine devient un instrument de résistance et d’affirmation identitaire : un espace où le savoir-faire est aussi un savoir-vivre.
Manger, par conséquent, est un acte politique et symbolique. Nous mangeons selon la société dans laquelle nous vivons, selon sa manière de produire et de distribuer les aliments, selon les richesses et les inégalités qu’elle engendre. Nous mangeons ce que notre culture autorise, ce que notre classe sociale permet, ce que notre mémoire reconnaît. La nourriture traduit la façon dont nous nous organisons, nous différencions et nous relions les uns aux autres.
Dire que la nourriture est culture, c’est affirmer que chaque repas est aussi un geste d’appartenance, une manière de raconter le monde et de recréer des liens entre les personnes et le territoire. C’est à table — lieu de rencontre, d’affection et de partage — que la culture se renouvelle et résiste.
@charoth10
#elcocineroloko
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