BOLA DE FOGO — A ARTE DE VENDER BOLINHOS E CONTAR A HISTÓRIA DE UM POVO


Por Florian Olivieri
Publicado em 15 de agosto de 2025, às 20h30

No pátio do Noailles, durante o Festival de Aurillac, o cheiro de azeite quente mistura-se à memória e à celebração. É o cenário de “Bola de Fogo”, solo incendiário de Fábio Osório Monteiro, artista baiano que transforma o ato de vender acarajé em performance, rito e resistência.

Criado em Salvador em 2017, o espetáculo é uma travessia entre culinária de rua, espiritualidade afro-brasileira, performance queer e memória ancestral. Vestido com a tradicional indumentária das baianas de acarajé, Fábio encarna não apenas o vendedor, mas o contador de histórias que faz da comida um veículo de identidade. Cada bolinho servido é também um fragmento de história — de sua própria trajetória como homem negro, artista, candomblecista e militante, e da história coletiva de um povo que sobreviveu e recriou o mundo à sua maneira.



O palco se torna calçada, barraca e terreiro. Entre cantos, gestos rituais e humor, o artista convida o público a partilhar uma experiência sensorial onde a oralidade é celebração e o alimento é memória. A venda de um acarajé vira um ato político, um gesto de resistência e afeto.

Dançarino, ator, pesquisador e ativista, Fábio Osório Monteiro encarna o que ele chama de um “teatro da pluralidade” — um espaço onde cabem as vozes que o palco tradicional muitas vezes silencia: as das mulheres negras, dos vendedores de rua, dos corpos dissidentes, das periferias. Sua ironia e autodepreciação servem para reencantar o cotidiano, aproximando tradição e contemporaneidade, riso e reverência.

Produzido pelo coletivo Corpo Rastreado e distribuído pela Corpo a Fora, Bola de Fogo já percorreu palcos no Brasil e no exterior. Em Aurillac, o espetáculo ganha nova dimensão ao ocupar o pátio do Noailles, um espaço íntimo e acolhedor que realça o caráter comunitário da obra.

Mais do que um espetáculo, Bola de Fogo é um ritual compartilhado, uma oferenda contra o esquecimento e a precariedade. É o fogo que aquece, alimenta e resiste.
Porque, se o mundo arde, Fábio Osório Monteiro nos ensina que é possível atravessá-lo juntos — com o coração em chamas e as mãos cobertas de azeite e histórias.

O Festival Internacional de Teatro de Rua de Aurillac é um dos mais importantes eventos de artes cênicas da França e referência mundial no campo das artes públicas. Criado em 1986 pelo artista e encenador Michel Crespin, o festival nasceu do desejo de romper as fronteiras entre palco e cidade, levando o teatro para as ruas e transformando o espaço urbano em território de encontro, criação e liberdade. Realizado todos os anos em agosto, na pequena cidade de Aurillac, na região de Auvergne, o evento reúne centenas de companhias vindas de todo o mundo e atrai mais de 100 mil pessoas durante quatro dias de celebração artística.

Organizado pela associação ÉCLAT – Centre National des Arts de la Rue et de l’Espace Public, o festival transforma Aurillac em um grande palco a céu aberto. Praças, pátios, esquinas e calçadas tornam-se cenários de performances que misturam teatro, dança, música, circo, artes visuais e intervenções urbanas. A programação é dividida entre o circuito oficial (o “IN”), que apresenta artistas convidados pela curadoria, e o vasto território “OFF”, onde centenas de grupos autônomos se apresentam de forma espontânea, criando uma atmosfera vibrante e imprevisível.

Mais do que um evento artístico, o Festival de Aurillac é um espaço de convivência democrática. As apresentações, em sua maioria gratuitas, atraem públicos de diferentes idades, origens e condições sociais, aproximando artistas e espectadores em uma experiência comum de fruição e reflexão. O espírito do festival é de ocupação e partilha: o teatro não se impõe ao espaço público, mas o reinventa, questionando fronteiras entre arte e vida, entre política e poética, entre espetáculo e cotidiano.

Nas últimas edições, o festival vem reforçando seu caráter internacional e político, abrindo espaço para artistas das periferias, minorias étnicas e corpos dissidentes. Em 2025, a programação incluiu um foco sobre a criação brasileira, dentro da Temporada França–Brasil, destacando o vigor e a diversidade da cena contemporânea do país. Nesse contexto, apresentações como Bola de Fogo, de Fábio Osório Monteiro, ecoam de forma potente: performances que misturam culinária, ritual e ancestralidade, refletindo o compromisso do festival com uma arte que resiste, provoca e transforma.

Com quase quatro décadas de existência, o Festival de Aurillac continua a ser um laboratório vivo de experimentação e um manifesto em defesa do espaço público como lugar de liberdade, diálogo e imaginação. Em cada edição, renova-se o mesmo gesto fundador: fazer da rua um palco e do encontro, uma celebração da vida.


©Renato Cruz Santos / Festival de Aurillac 2025



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