PIONEIRA DA LITERATURA AFRO INDÍGENA

Na FLIP 2025, que participou ao lado de Astrid Roemer, Verenilde conversou sobre como os seus escritos e os escritos de outros escritores que fogem da ideia formalista de literatura, foram sufocados. Ela alerta: "Há uma perigosa leitura etnocêntrica da literatura. Há um grupo cujo as metáforas são absolutamente desvalidas", e logo em cita Davi Kopenawa Yanomami como um desses autores desvalidados.

É preciso sempre relembrar as narrativas que contam a história do Brasil a partir dessa imensa floresta e dos povos que nela habitam. Símbolos emblemáticos de uma cultura que resiste à barbárie capitalista.

🔍 Sobre a Vida de Verenilde S. Pereira

Nascimento: Manaus, 20 de janeiro de 1956. 

Origem familiar: Mãe negra, pai indígena (etnia Sateré Mawé). 

Formação: Jornalismo na UFAM (Universidade Federal do Amazonas); depois mestrado em Comunicação, depois doutorado em Comunicação na UnB. 

Atuação como jornalista e ativista:

• Trabalhou para jornais de Manaus cobrindo indígenas, educação e temas afro-indígenas. 

• Participou da fundação do jornal Porantim, primeiro jornal dedicado às questões indígenas em Manaus. 

• Lecionou no seringal Katipari, rio Purus, com comunidades ribeirinhas, indígenas, seringueiros. 

Perseguição: Em meados dos anos 80, devido ao seu trabalho cobrindo conflitos de terras indígenas, ela sofreu perseguição política na região de São Gabriel da Cachoeira. Foi presa por alguns dias e teve de deixar o local.

📚 Obras principais

Um rio sem fim (1998) — romance considerado pioneiro na literatura afroindígena brasileira. Foi pouco lido na época de lançamento, teve distribuição limitada. Reedição recente pela Alfaguara / Companhia das Letras trouxe novo reconhecimento. 

Não da maneira como aconteceu (2002) — coletânea de contos. 

Tese de doutorado: “Violência e singularidade jornalística: ‘o massacre da Expedição Calleri’” (UnB, 2013)

📝 Sobre Um rio sem fim

Temática:

O livro retrata a chegada de uma missão religiosa à Amazônia, conflitos entre culturas indígenas e missionárias, violência, dominação cultural, impactos sobre identidades indígenas e negras, o olhar sobre o outro, os esquecidos da história oficial.

Estilo:

A narrativa mistura vivência pessoal, observação jornalística, memória histórica, ficção. Usa fragmentos, múltiplas vozes para dar visibilidade às que foram silenciadas. Não se prende ao formalismo literário tradicional.

Recepção:

Embora pouco notado originalmente, ganhou corpo com o relançamento. Críticos chamam atenção para como ela “resgata vozes quase absurdamente aniquiladas”, para a riqueza simbólica, para a denúncia de narrativas etnocêntricas.

🌱 Significado para a Amazônia e para o Brasil

A obra e trajetória de Verenilde dão visibilidade às populações indígenas, ribeirinhas e negras da Amazônia, cujas experiências muitas vezes são apagadas ou distorcidas.

Questiona o poder colonial, missionário, religioso e o etnocentrismo que tenta reduzir outras formas de ser e de ver o mundo.

Enfatiza que a Amazônia não é só natureza ou recursos; é culturas, línguas, histórias, subjetividades — resistências vivas.

Em tempos de destruição ambiental, invasões, desmatamento, exploração de territórios indígenas, sua voz é um alerta e uma chamada à responsabilidade.

Para saber mais sobre literatura, siga-nos:

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#ElcocineroLoko

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