GASTRONOMIA X TRABALHO: UM PAÍS QUE ESTRUTUROU SUA COZINHA E ESQUECEU DO HUMANO?


















Hoje, em Paris, uma greve geral paralisou o transporte público — um sinal das tensões sociais que atravessam a cidade. 

No Brasil, profissionais da gastronomia compartilham nas redes sociais suas dificuldades financeiras, denunciando jornadas exaustivas e baixos salários. Esse não é um problema isolado ou regional: ele atravessa continentes, refletindo como a história das cozinhas modernas está marcada por desigualdades estruturais que ignoram o bem-estar de quem produz o patrimônio culinário. Curioso, não? 

A França, berço da gastronomia mundialmente celebrada desde o século XVII, estruturou técnicas, escolas, rankings estrelados, concursos e certificados, mas parece ter esquecido do essencial: o bem-estar daqueles que realmente produzem todo esse patrimônio culinário.

Jornadas de Trabalho Abusivas

Nas cozinhas profissionais, tanto na França quanto no Brasil, a realidade é dura. Turnos que ultrapassam 12 horas diárias, poucas pausas, descanso insuficiente — a exaustão se tornou rotina. No Brasil, a famosa escala 6×1 exemplifica como a sobrecarga se institucionaliza. 

Na França, apesar de leis trabalhistas mais rigorosas, denúncias de jornadas excessivas em restaurantes de luxo e premiados não são raras. Burnout, estresse crônico, problemas de saúde física e mental — tudo isso acompanha quem dedica a vida a cozinhar pratos que serão celebrados internacionalmente.

Salários Deficientes

Enquanto o setor movimenta bilhões e ostenta prestígio mundial, a grande massa de profissionais recebe salários aquém do necessário para sobreviver. Na França, um auxiliar de cozinha recebe entre 1.602 e 3.362 euros brutos por mês — muitas vezes insuficiente para cobrir o custo de vida nas grandes cidades.

Em Portugal, o salário médio de um colaborador de café gira em torno de 1.074 euros mensais. No Brasil, a situação é ainda mais crítica: em 2023, mais de 900 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão no setor gastronômico.

Curiosamente, muitos restaurantes estrelados pagam aos seus cozinheiros o mesmo que um restaurante “comum”, mostrando que o glamour e a sofisticação não se traduzem em valorização do trabalho humano.

Fragilidade dos Sindicatos

Os sindicatos do setor enfrentam desafios gigantescos. 

Fragmentados, com recursos limitados e lidando com terceirizações e informalidade, têm dificuldade em negociar condições de trabalho justas. O resultado é que quem está na linha de frente, preparando pratos que serão aclamados internacionalmente, permanece vulnerável, sem proteção e com pouca voz.

Concentração nas Mãos de Grandes Restaurantes

O glamour da gastronomia mundial está concentrado nas mãos de poucos. Restaurantes sofisticados, com estrelas Michelin e títulos de “melhores do mundo”, detêm o poder econômico e político do setor. 

Enquanto os donos celebram prêmios e rankings, grande parte dos profissionais enfrenta jornadas exaustivas, baixos salários e uma quase inexistente valorização do seu esforço. A desigualdade entre prestígio e condições de trabalho é flagrante.

Por que precisamos repensar a gastronomia

A gastronomia, por mais sofisticada que seja, não pode se dissociar de quem a constrói diariamente. Para que este patrimônio cultural seja verdadeiramente sustentável, é preciso valorizar os profissionais: garantir jornadas justas, salários adequados, fortalecimento dos sindicatos e uma distribuição mais equitativa dos lucros. 

Só assim teremos uma cozinha que não apenas encanta o mundo, mas também respeita quem faz a magia acontecer.

Curiosidade irônica: enquanto turistas pagam fortunas por experiências “autênticas”, muitos cozinheiros nem conseguem pagar o transporte até o trabalho. Essa é a França que estruturou sua gastronomia — com técnica, prestígio e títulos, mas esquecendo do ingrediente mais básico: humanidade.

Um exemplo que funciona: Multicole Culinaire em Marseille

Durante minha experiência em Marseille, participei de um projeto maravilhoso: o Multicole Culinaire, iniciativa conjunta do La Criée, da La Friche e do Festival du Kus-kus. Trata-se de uma cozinha de produção que se tornou o xodó de todos os envolvidos no projeto.

O espaço, racional em termos de organização, está localizado no centro de Marseille, na Zona Norte — uma das áreas mais degradadas da cidade, com grande contingente de imigrantes. À primeira vista, poderia parecer um problema, mas não é.

O Multicole Culinaire funciona como uma cozinha de produção que apoia todas as ações desenvolvidas pela rede. O trabalho realizado ali vai muito além de uma filantropia passiva: é parte de um engenhoso processo de projetos apoiados pelas instituições da cidade, dedicado de forma consistente ao acolhimento e à receptividade de estrangeiros.

Outro ponto fundamental: todas as atividades são desenvolvidas de forma transversal e participativa. Cada colaborador, visitante e participante desempenha papel ativo, reforçando uma metodologia que une pesquisa, ensino, produção e intercâmbio cultural. Essa experiência mostra que é possível, sim, articular gastronomia, inclusão social e valorização humana — algo que, lamentavelmente, ainda falta em muitos restaurantes estrelados pelo mundo.

Ademan...

@charoth10

#ElcocineroLoko


GASTRONOMIE X TRAVAIL : UN PAYS QUI A STRUCTURÉ SA CUISINE ET OUBLIÉ L’HUMAIN ?

Aujourd’hui à Paris, une grève générale a paralysé les transports publics — un signe des tensions sociales qui traversent la ville.

Au Brésil, les professionnels de la gastronomie partagent sur les réseaux sociaux les difficultés financières qu’ils rencontrent au quotidien, dénonçant des horaires exténuants et des salaires insuffisants. Ce n’est pas un problème isolé ou régional : il traverse les continents, reflétant comment l’histoire des cuisines modernes est marquée par des inégalités structurelles qui ignorent le bien-être de ceux qui produisent le patrimoine culinaire. Curieux, non ?

La France, berceau de la gastronomie mondialement célébrée depuis le XVIIe siècle, a structuré techniques, écoles, classements étoilés, concours et certifications, mais semble avoir oublié l’essentiel : le bien-être de ceux qui produisent réellement ce patrimoine culinaire.

Journées de travail abusives

Dans les cuisines professionnelles, en France comme au Brésil, la réalité est dure. Les quarts dépassent souvent 12 heures par jour, avec peu de pauses et un repos insuffisant — l’épuisement est devenu une routine. Au Brésil, la fameuse rotation 6×1 illustre comment la surcharge est institutionnalisée.

En France, malgré une législation du travail plus stricte, les signalements de journées excessives dans les restaurants de luxe et étoilés ne sont pas rares. Burnout, stress chronique, problèmes de santé physique et mentale : voilà le quotidien de ceux qui consacrent leur vie à cuisiner des plats célébrés internationalement.

Salaires insuffisants

Alors que le secteur génère des milliards et jouit d’un prestige mondial, la majorité des professionnels perçoit des salaires insuffisants pour vivre. En France, un commis de cuisine gagne entre 1 602 et 3 362 euros brut par mois — souvent insuffisant pour couvrir le coût de la vie dans les grandes villes.

Au Portugal, le salaire moyen d’un employé de café est d’environ 1 074 euros par mois. Au Brésil, la situation est encore plus critique : en 2023, plus de 900 travailleurs ont été secourus de conditions assimilables à l’esclavage dans le secteur gastronomique.

Fait surprenant : de nombreux restaurants étoilés paient à leurs cuisiniers le même salaire que dans un restaurant « ordinaire », montrant que le glamour et la sophistication ne se traduisent pas en valorisation du travail humain.

Fragilité des syndicats

Les syndicats du secteur font face à d’énormes défis.

Fragmentés, avec des ressources limitées et confrontés à la sous-traitance et à l’informalité, ils peinent à négocier des conditions de travail justes. Résultat : ceux qui sont en première ligne, préparant des plats acclamés internationalement, restent vulnérables, sans protection et avec peu de voix.

Concentration entre les mains de grands restaurants

Le glamour de la gastronomie mondiale est concentré entre les mains de quelques-uns. Les restaurants sophistiqués, étoilés Michelin et titrés « meilleurs du monde », détiennent le pouvoir économique et politique du secteur.

Pendant que les propriétaires célèbrent prix et classements, une grande partie des professionnels affronte des horaires épuisants, des salaires bas et une quasi-inexistence de reconnaissance. L’inégalité entre prestige et conditions de travail est flagrante.

Pourquoi repenser la gastronomie

La gastronomie, aussi sophistiquée soit-elle, ne peut se dissocier de ceux qui la construisent au quotidien. Pour que ce patrimoine culturel soit véritablement durable, il faut valoriser les professionnels : garantir des horaires justes, des salaires adéquats, renforcer les syndicats et redistribuer équitablement les profits.

Ce n’est qu’ainsi que nous aurons une cuisine qui non seulement enchante le monde, mais respecte également ceux qui font la magie.

Curiosité ironique : pendant que les touristes paient des fortunes pour des expériences « authentiques », beaucoup de cuisiniers ne peuvent même pas payer leur transport pour se rendre au travail. Voilà la France qui a structuré sa gastronomie — avec technique, prestige et titres — mais en oubliant l’ingrédient le plus fondamental : l’humanité.

Un exemple qui fonctionne : Multicole Culinaire à Marseille

Lors de mon expérience à Marseille, j’ai participé à un projet remarquable : le Multicole Culinaire, initiative conjointe de La Criée, La Friche et du Festival du Kus-kus. Il s’agit d’une cuisine de production devenue le chouchou de tous les participants.

L’espace, organisé de manière rationnelle, est situé au centre de Marseille, dans le Nord de la ville — l’une des zones les plus dégradées, avec un fort contingent d’immigrants. À première vue, cela pourrait sembler problématique, mais ce n’est pas le cas.

Le Multicole Culinaire fonctionne comme une cuisine de production soutenant toutes les actions menées par le réseau. Le travail effectué va bien au-delà d’une philanthropie passive : il fait partie d’un processus ingénieux de projets soutenus par les institutions de la ville, dédié de manière cohérente à l’accueil et à la réceptivité des étrangers.

Autre point fondamental : toutes les activités sont menées de manière transversale et participative. Chaque collaborateur, visiteur et participant joue un rôle actif, renforçant une méthodologie qui combine recherche, enseignement, production et échange culturel. Cette expérience démontre qu’il est possible d’articuler gastronomie, inclusion sociale et valorisation humaine — ce qui fait encore défaut dans de nombreux restaurants étoilés à travers le monde.



@charoth10

#ElcocineroLoko

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