Não sou crítico de arte, mas acredito que a sensibilidade basta para reconhecer quando uma obra carrega potência transformadora.

Já havia mencionado aqui a artista Emília Martines @emili.irene.sofie — e agora quero compartilhar algumas percepções que considero importantes sobre seu trabalho.

Ao ler o texto de Emily sobre sua pintura, sinto que nele há uma verdade que não se mede em palavras — apenas em vibração. Sua obra me toca porque anuncia a memória, nos coloca diante da vida e da morte ao mesmo tempo, como se testemunhássemos algo que insiste em permanecer mesmo na sua fragilidade.

Emily recorda Deleuze ao falar da pintura como catástrofe. Essa ideia me acompanha, mas num registro próprio: para mim, a catástrofe não é apenas o colapso, nem somente esse “belo-terror” que ancora nossa experiência no real. Ela é também a fenda por onde o sensível se reescreve. Nesse ponto de ruptura, a obra se torna fértil: não como repetição do desastre, mas como chance de abrir espaço para outros mundos possíveis.

É por isso que diante de uma pintura somos levados ao limite do que suportamos ver — mas também convidados a inventar novas leituras. O gesto do artista transforma o indizível em campo de significados, e na obra de Emily a catástrofe não paralisa: é respiro, é fissura, é presença que insiste em permanecer.

Lembro-me, então, de uma noite em Marseille, quando conversamos sobre as “Mulheres Berinjela”. Assim as nomeei, não em ironia, mas em admiração. Impressionava-me a força daquelas mulheres muçulmanas que atravessavam a cidade com suas roupas densas e escuras. Havia naquelas presenças algo que ultrapassava o olhar: um silêncio que dizia tanto quanto ocultava. Era como um véu que, mais do que esconder, instaurava uma outra medida do visível.

É esse mesmo jogo que encontro na pintura de Emily: o véu e a revelação, o oculto e a memória que não se deixa capturar. Há sempre um sopro, uma catástrofe silenciosa que revela o sublime no cotidiano mais íntimo. Sua pintura nos devolve ao real, mas deslocado, espiritual, onde herança, amor e terror coexistem no mesmo traço.

Recordo, então, a gravação de Raphael Rabello com a divina Elizeth Cardoso, quando um cante jondo se insinuava no dueto entre voz e violão. 

Não era apenas música, mas um estado de revelação. O violão não acompanhava: era corpo, sopro, memória viva a cada nota.

Assim também é a pintura de Emily: uma fusão entre gesto e silêncio, entre presença e sombra. Como o violão de Rabello diante da voz de Elizeth, sua tela não apenas acolhe — ela vibra junto, transfigura a catástrofe em respiro, abre espaço para aquilo que resiste em permanecer, mesmo quando quase se perde.


Leia ouvindo

https://youtu.be/R4c0UilMOvE?si=CeAUFfQ1ynD-SOGX


Je ne suis pas critique d’art, mais je crois que la sensibilité suffit pour reconnaître lorsqu’une œuvre porte une force transformatrice.

J’avais déjà mentionné ici l’artiste Emília Martines @emili.irene.sofie — et je souhaite maintenant partager quelques perceptions que je considère importantes à propos de son travail.



En lisant le texte d’Emily sur sa peinture, je ressens qu’il contient une vérité qui ne se mesure pas avec des mots — seulement par des vibrations. Son œuvre me touche parce qu’elle annonce la mémoire, nous place face à la vie et à la mort en même temps, comme si nous étions témoins de quelque chose qui insiste pour rester, même dans sa fragilité.

Emily évoque Deleuze en parlant de la peinture comme catastrophe. Cette idée m’accompagne, mais dans un registre qui m’est propre : pour moi, la catastrophe n’est pas seulement l’effondrement, ni uniquement ce « beau-terreur » qui ancre notre expérience dans le réel. Elle est aussi la fissure par laquelle le sensible se réécrit. À ce point de rupture, l’œuvre devient fertile : non comme répétition du désastre, mais comme possibilité d’ouvrir l’espace à d’autres mondes possibles.

C’est pourquoi, face à une peinture, nous sommes poussés aux limites de ce que nous pouvons supporter de voir — mais aussi invités à inventer de nouvelles lectures. Le geste de l’artiste transforme l’indicible en champ de significations, et dans l’œuvre d’Emily, la catastrophe n’est pas paralysante : c’est souffle, fissure, présence qui insiste pour rester.

Je me souviens alors d’une nuit à Marseille, lorsque nous avons parlé des « Femmes Aubergine ». C’est ainsi que je les ai nommées, non par ironie, mais avec admiration. Ce qui m’impressionnait, c’était la force de ces femmes musulmanes traversant la ville, vêtues de tissus denses et sombres. Il y avait en elles quelque chose qui dépassait le regard : un silence qui disait autant qu’il cachait. C’était comme un voile qui, plus qu’il ne cache, instaurait une autre mesure du visible.


C’est ce même jeu que je retrouve dans la peinture d’Emily : le voile et la révélation, l’invisible et la mémoire qui ne se laisse pas capturer. Il y a toujours un souffle, une catastrophe silencieuse qui révèle le sublime dans le quotidien le plus intime. Sa peinture nous renvoie au réel, mais de manière déplacée, spirituelle, où héritage, amour et terreur coexistent dans le même trait.

Je me rappelle alors l’enregistrement de Raphael Rabello avec la divine Elizeth Cardoso, lorsque le cante jondo s’insinuait dans le duo entre voix et guitare. Ce n’était pas seulement de la musique, mais un état de révélation. La guitare n’accompagnait pas : elle était corps, souffle, mémoire vivante à chaque note.

Il en va de même pour la peinture d’Emily : une fusion entre geste et silence, entre présence et ombre. Comme la guitare de Rabello face à la voix d’Elizeth, sa toile n’accueille pas seulement — elle vibre avec, transforme la catastrophe en souffle, ouvre un espace pour ce qui insiste à rester, même lorsqu’il est sur le point de disparaître.


https://youtu.be/R4c0UilMOvE?si=CeAUFfQ1ynD-SOGX



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