AMIGOS SÃO COMO JARDINS, E EXPLICO POR QUÊ.









Enganam-se muitos: as grandes cidades não se constroem em totalidade, mas em fragmentos.

Não se deixam levar pela turba que tudo devora, como se a metáfora de um lugar pudesse ser tomada ao pé da letra.

Mesmo que os clichês já tenham repetido isso mil vezes, não encontro imagem mais justa.

Forma e conteúdo se enredam nesse processo, como galhos e raízes que confundem o barroco dos meus cachos.

Da janela, contemplo os jardins suspensos, os canteiros que pendem dos edifícios.

Vejo Paris imprimir, quase sem que as pessoas percebam, um questionamento sobre a beleza.

O que para alguns é apenas mato — ou, pior, erva daninha — para mim se revela como diversidade.

A velha senhora, a beleza, insiste em nos provocar:

convida-nos a pensar uma estética mais múltipla, mais viva, sempre em movimento.

Alguns amigos são árvores antigas, que nos oferecem sombra e repouso. Outros florescem de repente, como cores inesperadas no muro cinza.

Todos, de alguma forma, deixam na palma da mão um traço de verde, um pouco de calor, um pouco de lembrança.

Há ainda os que são raízes, invisíveis aos olhos, mas que sustentam o chão por onde caminho.

São como os Amarantos, as Sempre-vivas, a Sálvia, as Dracenas —ou como tudo aquilo que se come, ou que poderia ser alimento.

Presenças discretas, que guardam força e permanência, e nos lembram que a amizade também nutre, resiste e floresce.

Não é preciso pedir: basta um gesto, um silêncio partilhado, um riso que se abre como a estação das chuvas, um pedaço de jardim no meio da pressa da cidade, um canteiro sempre vivo, mesmo quando a paisagem seca.

E quando me dão a mão, sei que não recebo só a mão —trago comigo o perfume da planta que se espalha, a lembrança do verde, a certeza da amizade que floresce.

Talvez sejam os ares, ou a inspiração de poemas lidos, que hoje fazem sentido: Rimbaud, Foucault, Baudelaire, Hugô —ou o álcool essencial que se contrapõe ao óbvio do olhar, à mediocridade da vida.

Uma reação humana que se manifesta em detalhes quase invisíveis, mas que carregam a potência de transformar o mundo.

Porque a beleza, afinal, é um conceito muito restritivo quando se fala da vida. Ou talvez seja o contrário: o feio também pode ser belo, se não nos deixamos aprisionar pelas molduras da estética dominante.

A ideia cristalizada de beleza — aquela que pretende ser universal e totalizante — vem de longe: das proporções gregas, da simetria renascentista, da ilusão de perfeição.

Mas a vida escapa disso. O grotesco medieval, o sublime romântico, o surrealismo do século XX: todos lembram que o belo também habita o disforme, o inesperado.

Baudelaire falava da beleza convulsiva; Nietzsche desconfiava da aparência agradável e celebrava o trágico como força vital.

Assim é a amizade, assim são os jardins: múltiplos, contraditórios, vivos.

O que para alguns é apenas mato — ou, pior, erva daninha —

para mim é diversidade, é alimento, é permanência.

E talvez seja justamente aí, nesse detalhe quase invisível, que o belo se reinventa: não como cristal, mas como movimento.


@charoth10

#ElcocineroLoko



LES AMIS SONT COMME DES JARDINS, ET JE VOUS EXPLIQUE POURQUOI


Beaucoup se trompent : les grandes villes ne se construisent pas dans leur totalité, mais en fragments.

Elles ne se laissent pas emporter par la foule qui dévore tout, comme si la métaphore d’un lieu pouvait être prise au pied de la lettre.

Même si les clichés l’ont répété mille fois, je ne trouve pas d’image plus juste.

Forme et contenu s’entrelacent, comme branches et racines qui confondent le baroque de mes boucles.

Depuis ma fenêtre, je contemple jardins suspendus, plates-bandes qui pendent des immeubles.

Je vois Paris s’imprimer, presque sans que personne ne s’en aperçoive, un questionnement sur la beauté.

Ce que certains considèrent comme mato —

ou pire, mauvaises herbes —pour moi, c’est diversité.

La vieille dame, la beauté, insiste pour nous provoquer: elle nous invite à penser une esthétique multiple, vivante, en mouvement.

Certains amis sont des arbres anciens, qui offrent ombre et repos.

D’autres fleurissent soudainement, comme des couleurs inattendues sur un mur gris.

Tous laissent dans la paume de la main un trait de vert, un peu de chaleur, un peu de souvenir.

Il y a ceux qui sont des racines, invisibles aux yeux, mais qui soutiennent le sol sur lequel je marche.

Comme les Amaranthes, les Immortelles,

la Sauge, les Dracaenas —ou tout ce qui se mange, ou pourrait être comestible.

Présences discrètes, qui gardent force et permanence, rappelant que l’amitié nourrit, résiste, fleurit.

Il n’est pas nécessaire de demander:un geste, un silence partagé, un rire qui s’ouvre comme la saison des pluies, un bout de jardin au milieu de la hâte, une plate-bande toujours vivante, même lorsque le paysage se dessèche.

Et quand ils me tendent la main, je ne reçois pas seulement la main —je porte le parfum de la plante qui se répand, le souvenir du vert, la certitude que l’amitié fleurit.

Peut-être l’air, ou l’inspiration de poèmes lus,

qui prennent aujourd’hui tout leur sens : Rimbaud, Foucault, Baudelaire, Hugo —ou l’alcool essentiel qui s’oppose à l’évidence du regard, à la médiocrité de la vie.

Une réaction humaine, qui se manifeste dans des détails presque invisibles, mais qui portent la puissance de transformer le monde.

Car la beauté, au fond, est un concept très restrictif quand on parle de la vie. Ou peut-être est-ce l’inverse: le laid peut aussi être beau, si l’on ne se laisse pas emprisonner par les cadres de l’esthétique dominante.

L’idée cristallisée de la beauté —celle qui prétend être universelle et totalisante —vient de loin : proportions grecques, symétrie de la Renaissance, illusion de perfection.

Mais la vie échappe à cela.

Le grotesque médiéval, le sublime romantique,

le surréalisme du XXe siècle:tous rappellent que le beau habite aussi le difforme, l’inattendu.

Baudelaire parlait de la beauté convulsive; Nietzsche se méfiait de l’apparence agréable et célébrait le tragique comme force vitale.

Ainsi est l’amitié, ainsi sont les jardins: multiples, contradictoires, vivants.

Ce que certains considèrent comme mauvaises herbes —pour moi, c’est diversité, nourriture, permanence.

Et c’est peut-être là, dans ce détail presque invisible, que le beau se réinvente : non comme un cristal,

mais comme un mouvement.



@charoth10


#ElcocineroLoko



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