A Folha da Bananeira e o Ékọ: Tradição, Nomes e Interpretações

A folha da bananeira, conhecida tradicionalmente como Eweógẹdẹ, passou, devido ao uso frequente no preparo do acaçá no Brasil, a ser chamada por alguns de EweEkó — “a folha de uma determinada espécie de bananeira do mato”, segundo Mãe Beata. Surge então a questão: por que Ewe Ekó para a folha da bananeira, e não Ewe Acaçá, visto que é pelo nome ékọ, e não ékó, que o alimento se tornou conhecido no Brasil?

Um dos fatores que nos leva a crer que o nome da folha não deveria estar vinculado ao ékọ é histórico: o milho, ingrediente principal do ékọ, chegou à África depois da banana. Portanto, originalmente, o nome da folha estava relacionado ao fruto, e não ao alimento que posteriormente ela envolveria.

No território Yorùbá, observa-se que uma das folhas utilizadas para envolver o ékọ era chamada Ewe Eerán, destacada por Ifatosin como Iran (Thaumatococcus daniellii). Embora frequentemente confundida com a folha de bananeira devido à textura, a Ewe Eerán nunca foi chamada de Ewe Ékọ. Outra folha usada no estado de Oyó é a Ewe Gédu, proveniente da árvore homônima, segundo Maria Inês Couto de Almeida.

Ifatosin descreve:

> “A comida de Orisa’nlá não deve levar sal nem pimenta. Além de igbin, oferece-se orogbo, coco, egbo, ékọ funfun (acaçá) em número de 16 ou 32, enrolados numa folha de ewe-iran (árvore nigeriana)”.

Juana Elbein complementa:

> “Retirado seu invólucro verde, ele constitui a comida dos orisa funfun”.

Isso demonstra que o ékọ pode ser envolto em diferentes folhas, sem que sua essência ritual seja alterada. Wande Abinbola acrescenta à lista a folha de mamona (Ewe Lara) como invólucro do ékọ.

Embora o ékọ esteja estreitamente ligado a Orisa’nlá, o mesmo não se aplica à bananeira, que em algumas tradições é associada a Xangô, a Iroko (Loko) ou Exu. Segundo José Flavio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão:

> “Embora o acaçá seja o alimento predileto de Oxalá, a este orixá são atribuídas apenas às folhas de banana-prata, pois a banana-d’água (ógẹdẹọmìnì) é um dos seus principais ‘ẹwọ’ (interditos), como também é para Oiá”.

Dessa análise, podemos afirmar: não é a folha da bananeira que torna o ékọ propício a Oxalá, mas sim a massa preparada a partir do agbado funfun (milho branco). A transformação do ékọ em acaçá não depende da folha usada; independentemente do invólucro, o alimento mantém seu nome yorùbá no Brasil.

Na tradição yorùbá, o ato de enrolar a massa — o ékọ — em folhas determina apenas a forma de apresentação. Juana Elbein enfatiza:

> “Envolvido numa folha verde... é símbolo de um ser e, como tal,... pode representar qualquer animal ou mesmo substituir um ser humano”.

Portanto, a folha da bananeira não é o segredo do ékọ, nem sua presença determina a sacralidade ou a transformação do alimento. Diferentes folhas, como Ewe Gédu ou Ewe Lara, podem cumprir a mesma função. O mais importante é a presença do alimento como oferenda, não o tipo específico de folha.

Em resumo: a interpretação de que o ékọ só se torna acaçá após contato com a folha da bananeira é um equívoco. O que confere valor ritual ao alimento é sua função e o ato de oferecê-lo, e não o invólucro vegetal. Como afirma T’ogun Aroleifa, a tradição deve ser entendida pelo conteúdo e significado do preparo, e não por uma prescrição rígida sobre a folha utilizada.

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